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[Crônica] Sinto falta de críticos como Rubens Ewald Filho

Hoje eu queria falar de alguém que, talvez sem muita gente perceber na época, ajudou a formar o olhar de uma geração inteira sobre cinema no Brasil: Rubens Ewald Filho. E não é exagero.

Eu sinto falta de críticos como o Rubens Ewald Filho. E hoje, vou comentar o por quê eu digo isso tanto. Aliás, pode ser levado como uma crítica aos "críticos" de internet atuais, aos influencers digitais, e ao mesmo tempo até uma homenagem ao próprio saudoso Rubens.


Ele podia até errar — e errava — mas existia uma coisa essencial: coerência. Ele analisava cinema como cinema.

Hoje, muita crítica parece mais interessada em empurrar uma visão de mundo do que em avaliar um filme de verdade. Muita gente não analisa mais filme… analisa posicionamento. Se não encaixa numa visão específica, já vira problema — independente da qualidade. Não é mais sobre roteiro, direção, trilha sonora ou atuação… é sobre se o filme segue ou não uma expectativa ideológica.

E aí acontece o absurdo: obras bem feitas, divertidas, com boa construção narrativa, são ignoradas ou massacradas por não entrarem em certos temas — como se todo filme tivesse obrigação de carregar um discurso específico. Ou Seja, não por serem ruins, mas por não seguirem uma cartilha.

E o mais curioso é a incoerência. Tem gente que cobra discurso, cobra postura… mas na prática não vive nada disso. Exige do cinema aquilo que nem aplica na própria vida.

Cinema não é só isso. Cinema também é entretenimento, emoção, escapismo.

Se um filme cumpre bem a proposta dele — seja fazer rir, emocionar ou encantar — isso deveria importar, ser o principal.

Aos diretores, eu digo, se quiser falar de política, a sua visão, pode colocar no roteiro, mas conta uma boa história, faça uma boa escrita. Faça valer a pena ver o seu pensamento sobre o assunto em uma forma que entretem de verdade nas telas, e não que fique parecendo uma cartilha, com qualidade duvidosa.

No fim das contas, crítica não deveria dizer no que você tem que pensar… mas te ajudar a entender melhor o que você está assistindo.

MAS, QUEM FOI RUBENS EWALD FILHO?

Rubens Ewald Filho não era só um crítico… era praticamente um tradutor do cinema pro público brasileiro.

Se você já parou pra assistir ao Oscar em algum momento entre os anos 90 e 2000, é praticamente impossível que você não tenha ouvido a voz dele. Era aquele tipo de presença que não precisava aparecer o tempo todo — quando aparecia, você sabia que vinha informação, contexto, história… e opinião. Muita opinião.

Mas o mais curioso é que o Rubens não ficou só na TV. Ele estava em tudo quanto era canto onde o cinema passava. Pra muita gente, ele era aquela voz nas transmissões ao vivo comentando filme, ator, diretor… quase como um guia, te explicando o que você estava vendo sem te tratar como burro. Pra outros, ele estava nas revistas, nos jornais, nas críticas escritas. E tem um detalhe que muita gente esquece: ele também esteve, indiretamente, dentro da casa de muita gente através das fitas VHS.

Sim, VHS.

Naquela época em que a gente alugava filme no fim de semana, muitas traduções, adaptações e até escolhas de títulos passavam pela mão dele. Ou seja, ele não só comentava cinema — ele ajudava a moldar como o brasileiro consumia cinema.

E aí entra um ponto que, pra mim, é o que mais diferencia ele de muita gente hoje: a forma como ele falava de cinema.

O Rubens não tinha aquela coisa travada, elitista, cheia de termos que parecem mais pra afastar do que pra aproximar. Ele conseguia falar de um filme complexo de um jeito simples… sem simplificar demais. Isso é muito difícil. Ele traduzia o cinema. Ele fazia a ponte entre a obra e o público comum.

E ao mesmo tempo… ele não era neutro.

Muito pelo contrário.

Ele tinha opinião forte, às vezes polêmica, às vezes direta até demais. Mas isso fazia parte do pacote. Ele não estava ali pra agradar todo mundo — ele estava ali pra dizer o que pensava. E isso, gostando ou não, dava personalidade. Hoje em dia a gente vê muito crítico tentando ficar em cima do muro… o Rubens não. Ele escolhia um lado, defendia, e pronto.

Os críticos atuais, no máximo tentam empurrar o seu lado, mesmo que sequer tenham um, e apenas finjam ter um, apenas por visualizações, ou mesmo "porque o pagamento caiu". Há muito mais cr´tiicos "famosos" que são "rasos" do que realmente entendam de cinema, infelizmente. E é um copiando/imitando o outro. E os poucos autênticos (de alguma forma), não conseguem ter relevância em números.

E talvez seja por isso que ele ficou tanto tempo relevante. Porque ele não era só “mais um crítico”. Ele era uma figura. Uma referência. Alguém que você podia concordar ou discordar, mas não ignorar.

E aí vem a parte inevitável.

Em 2019, o Rubens Ewald Filho faleceu.

E quando isso aconteceu, muita gente sentiu como se tivesse perdido uma espécie de “guia” — aquele cara que, por décadas, esteve ali ajudando a gente a entender melhor o cinema, mesmo que a gente nem percebesse isso conscientemente.

Hoje, olhando pra trás, dá pra perceber o tamanho do impacto.

Ele não só comentou filmes. Ele não só analisou obras. Ele não só apareceu na TV.

Ele ajudou a formar o olhar de quem assistia.


QUEM FOI, LONGE DAS TELAS?

Bom, tenho alguma propriedade, memso que pouca, para falar ao menos o que eu conheci. Tive o prazer de tê-lo conhecido presencialmente, tendo conversado algumas vezes. Ele era super receptivo com todos, independente de serem famosos ou desconhecidos.

Um de seus filmes favoritos (que pode-se dizer até que era um "guilty pleasure") era Professor Aloprado (o primeiro do Eddie Murphy, não o do Jerry Lewis). Ele alugava ao menos uma vez por mês, junto de outros filmes, novos e antigos, na antiga 2001 Video de Moema. Sei disso porque muitas vezes eu o atendia lá, quando fui freelancer por alguns anos (principalmente entre 2013 e 2015), e se a loja não estivesse lotada no dia, eu gostava de conversar sobre cinema com ele.

Tanto ele, quanto Paulo Gustavo (antiga revista SET), tinham opiniões bem diretas desde sempre, e estavam abertos à idéias diferentes em um bate papo sobre cada filme que acabavam de assistir, nas cabines de imprensa. Nem sempre eu concordava com algumas opiniões mais pessoais, mas, havia respeito e uma boa prosa, sempre!

Fora das câmeras, Rubens Ewald Filho era exatamente aquilo que muita gente imaginava… e ao mesmo tempo, um pouco mais humano do que a figura pública deixava transparecer.

Ele era, antes de qualquer coisa, um cara completamente obcecado por cinema — no melhor e no pior sentido da palavra. Não era só profissão. Não era só trabalho. Era rotina, era hábito, era praticamente o jeito dele existir no mundo. Ele assistia filme como quem respira. E isso moldava tudo ao redor dele.

Quem convivia mais de perto costumava comentar que ele tinha uma memória absurda. Não era só “ah, já vi esse filme”. Era:

— lembrar elenco completo

— ano de lançamento

— bastidores

— curiosidades específicas

Tipo uma enciclopédia viva… só que com opinião.

E isso vinha junto com uma personalidade muito característica.

Ele não era exatamente o tipo de pessoa “polida” o tempo todo. Não fazia muito esforço pra suavizar o que pensava. Se gostava, falava. Se não gostava… falava mais ainda. Isso podia soar duro pra algumas pessoas, até meio impaciente às vezes. Mas também era o que tornava ele autêntico. Não tinha filtro artificial.

Ao mesmo tempo, existe um lado que pouca gente comenta:

ele era extremamente dedicado ao trabalho. Não era aquela dedicação performática de aparecer… era disciplina mesmo. Ver filme, estudar, escrever, comentar, repetir. Por décadas. Sem parar.

E isso cobra um preço.

Porque quando alguém vive tanto dentro de um universo — no caso dele, o cinema — é comum que a vida pessoal fique mais reservada, mais fechada. Ele não era uma figura de exposição íntima. Você sabia muito mais sobre o que ele pensava dos filmes… do que sobre a vida dele fora disso.

E talvez isso seja até coerente.

Porque, no fim das contas, o Rubens nunca tentou vender uma imagem pessoal. Ele não era o “influencer de si mesmo”. Ele era o cara do cinema. E só.

Mas tem um detalhe importante nisso tudo:

mesmo sendo direto, crítico e às vezes duro… ele também tinha um lado de admiração genuína pelo cinema. Quando ele gostava de algo, dava pra perceber. Não era só análise técnica — tinha paixão ali.

E isso é o que segura tudo.

Porque você pode discordar de um crítico… mas quando você percebe que ele ama aquilo de verdade, a conversa muda.

Se fosse resumir esse lado mais pessoal dele, no seu estilo:

Fora das câmeras, Rubens Ewald Filho não era um personagem… era um cara que viveu tanto o cinema, que acabou se tornando parte dele.

E talvez seja por isso que, mesmo depois de tanto tempo… a ausência dele ainda é sentida.

E QUEM FOI ELE, DENTRO DO CINEMA?

Muita gente conhece o Rubens Ewald Filho só como “o cara que comentava filmes”… mas isso é só uma parte da história.

Porque, antes — e durante — tudo isso, ele também tentou viver o cinema por dentro.

E isso muda bastante a forma como a gente enxerga o trabalho dele.

Rubens não ficou só na cadeira de crítico. Ele estudou cinema, escreveu sobre cinema, mas também se envolveu diretamente com produção, roteiro e até atuação, mesmo que muita gente não associe isso de imediato ao nome dele.

No começo da carreira, ele teve contato direto com o fazer cinematográfico, principalmente no Brasil, numa época em que a indústria era muito mais limitada e difícil. Ele participou de projetos como roteirista e colaborador criativo, ajudando a construir histórias — o que, pra um crítico, é um diferencial enorme.

Porque uma coisa é analisar filme pronto.

Outra coisa completamente diferente é entender o processo de criar um.

E isso aparece na forma como ele falava.

Quando ele criticava um roteiro, por exemplo, não parecia alguém “de fora chutando”. Parecia alguém que sabia onde doía. Onde travava. Onde funcionava ou não funcionava.

Além disso, ele também fez participações como ator, geralmente pequenas, quase como participações especiais. Nada que definisse a carreira dele, mas o suficiente pra mostrar uma coisa: ele não via o cinema como algo distante, ele queria fazer parte daquilo (Mesmo que não fosse o foco principal.).

Mas talvez a parte mais forte desse “lado de dentro” dele esteja em outra coisa:

Tradução e adaptação

Isso aqui é subestimado demais.

Rubens trabalhou com:

  • tradução de filmes
  • adaptação de diálogos
  • versões para o público brasileiro

E isso, principalmente na época de VHS e TV, era praticamente uma arte invisível.

Porque não era só traduzir palavra por palavra. Era:

  • adaptar contexto
  • ajustar timing
  • manter sentido cultural
  • fazer o filme “funcionar” em português

E isso influencia MUITO a experiência de quem assiste

Muita gente cresceu vendo filmes “do jeito que ele ajudou a moldar”… sem nem saber disso.

E aí entra um ponto que amarra tudo: Ele não era só alguém que opinava sobre cinema.

Ele já tinha estado dentro, já tinha tentado construir, já tinha participado do processo. E isso dá um peso diferente pra crítica.

Eu mesmo, tento seguir seus passos neste ponto, afinal, também trabalho como ator, já fui locutor de rádio, escrevo minhas críticas de filmes e games em alguns sites. Levo comigo o seu intuito: falar de forma direta e simples, sem palavras difíceis, para que todos possam entender do que se trata aquilo que estou falando!

Rubens Ewald Filho não era só um cara que falava de cinema… ele já tinha colocado a mão na massa — e isso fazia toda diferença na hora de criticar.

E talvez seja por isso que, mesmo quando a gente discorda de algumas opiniões dele… ainda assim dá pra respeitar. Porque não vinha só de teoria. Vinha de vivência.

AONDE VIMOS ELE ANTES?

Embora mais reconhecido como crítico de cinema, Rubens Ewald Filho (1945–2019) teve breves experiências como ator, incluindo o filme Amor, Estranho Amor (1982). Sua atuação artística foi mais intensa como roteirista de telenovelas (como Éramos Seis) e diretor teatral. Ele é lembrado como o "Homem do Oscar". 

Destaques de Rubens Ewald Filho no cinema e teatro:

Atuação: Participou do filme Amor, Estranho Amor (1982).

Roteirista: Escreveu o roteiro de filmes como A Árvore dos Sexos (1977) e Elas são do Baralho (1977), além de colaborar na novela Éramos Seis (SBT).

Direção Teatral: Dirigiu peças como O Amante de Lady Chatterley e Querido Mundo (de Miguel Falabella).

Legado: Comentou o Oscar por mais de 30 anos e catalogou mais de 37 mil filmes.

Além de ator e roteirista, ele foi um dos críticos mais influentes do Brasil, com passagens pela TV Cultura, TNT, HBO Brasil e jornais como o Jornal da Tarde.

AONDE QUERO CHEGAR COM TUDO ISSO?

Embora mais reconhecido como crítico, Rubens Ewald Filho foi muito mais do que isso. Passou pelo cinema como ator em Amor, Estranho Amor (1982), escreveu roteiros, dirigiu teatro, colaborou com televisão… mas, no fim, encontrou seu verdadeiro lugar entre a tela e o público. Foi ali que ele construiu algo raro: não apenas opinião, mas ponte.

Rubens não falava difícil pra parecer inteligente — ele tornava o cinema acessível sem tirar sua complexidade. Tinha opinião, tinha personalidade, tinha coragem de discordar. E, acima de tudo, tinha paixão verdadeira pelo que fazia. Em um tempo em que muitos preferem agradar ou seguir tendência, ele fazia algo mais simples e mais difícil: era autêntico.

Talvez seja por isso que faça tanta falta.

Não só pelo conhecimento, mas pela presença. Pela forma como guiava o olhar, como contextualizava, como fazia a gente enxergar mais do que estava na tela. Hoje, com tanta informação disponível, ainda assim parece que falta alguém que realmente saiba traduzir o cinema como ele fazia.

Porque o Rubens Ewald Filho até apareceu em algumas produções… mas o lugar onde ele realmente “atuava” era na TV — comentando, explicando e, de certa forma, fazendo a gente enxergar o filme junto com ele. O homem que não estava dentro do filme… mas estava em todos eles.

E talvez seja exatamente por isso que sinto falta de críticos como ele. Porque mais do que assistir filmes, ele nos ensinou a ver.

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