[Crítica] Sr Blake Ao Seu Dispor
Quando o luto vira gentileza — e o conforto vira limite
Existe um tipo muito específico de filme que não quer te impressionar.
Ele não quer gritar, não quer correr, não quer te sacudir pela gola.
Ele só quer sentar do seu lado, servir um chá quente e perguntar, com educação quase constrangedora:
“Você está bem?”
Sr. Blake ao Seu Dispor é exatamente esse tipo de filme.
John Malkovich interpreta Andrew Blake, um homem que já viveu tudo o que precisava viver — e agora só está sobrevivendo. A morte da esposa não é um gatilho narrativo espetacular, é um vazio silencioso. E isso já diz muito sobre a proposta do filme: aqui, o drama não vem em ondas, vem em goteiras.
Blake volta à França tentando reencontrar algo que não sabe mais se existe. E, por um erro quase cômico — mas nunca caricato — acaba virando mordomo de uma mansão decadente, cercado por pessoas tão quebradas quanto ele. Cada uma à sua maneira. Cada uma fingindo funcionar.
O charme está no humano — e o risco também
O maior acerto do filme é também seu maior risco:
ele aposta 100% em humanidade, e 0% em pressa.
Não há grandes viradas.
Não há discursos inflamados.
Não há catarse hollywoodiana.
O que existe são olhares, silêncios, pequenas vergonhas sociais, desconfortos sutis e uma comédia que surge mais do absurdo da convivência humana do que de piadas propriamente ditas.
John Malkovich está confortável — talvez até demais. Ele carrega o filme com presença, mas não com intensidade explosiva. É um trabalho de contenção. De alguém que já chorou tudo o que tinha pra chorar e agora só anda com os cacos no bolso.
Fanny Ardant funciona como contraponto elegante, quase etéreo. Os personagens secundários existem menos para “arcos” e mais para reflexos. São espelhos quebrados, não trajetórias heroicas.
Por que o filme divide tanto o público?
Porque Sr. Blake ao Seu Dispor não quer agradar todo mundo.
E, ao mesmo tempo, quer ser gentil demais com quem assiste.
Parte da crítica viu charme, sensibilidade e calor humano.
Outra parte viu um filme frouxo, sem ritmo, sem coragem de ir além da própria delicadeza.
E as duas estão certas.
O filme é bonito, mas previsível.
É sensível, mas seguro.
É aconchegante, mas raramente desafiador.
Em alguns momentos, ele parece aquele amigo que tem algo muito profundo para dizer… mas prefere não incomodar ninguém com isso.
O luto como espaço, não como conflito
O luto aqui não é superado.
Ele é habitado.
E isso é honesto.
Mas também limita a narrativa.
O filme prefere ficar nesse estado de suspensão emocional, como se tivesse medo de quebrar o clima. Não há grande confronto interno, apenas pequenas reorganizações afetivas. Isso pode ser lindo para quem está no mesmo estado de espírito — e entediante para quem espera transformação.
Talvez o maior problema seja esse:
o filme termina quase do mesmo jeito que começa, só um pouco menos triste.
Um filme que abraça — mas não empurra
Sr. Blake ao Seu Dispor é um filme sobre continuar vivendo quando já não se espera nada da vida. Ele entende a dor, respeita o silêncio e acredita na gentileza como último gesto de resistência.
Mas também é um filme que evita riscos narrativos, que não se permite ser feio, duro ou verdadeiramente desconfortável. Ele prefere o tom agradável à verdade mais áspera.
Ainda assim, há valor nisso.
Nem todo filme precisa te destruir.
Alguns só querem te acompanhar.
Veredito final
Sr. Blake ao Seu Dispor é uma comédia dramática delicada, bem-intencionada e emocionalmente honesta — mas que joga excessivamente seguro.
Funciona melhor como experiência sensorial tranquila do que como história memorável. É um filme para quem está cansado, não para quem quer ser provocado.
Não é ruim.
Não é incrível.
É humano.
E, às vezes, isso basta. Bonito, gentil… e talvez educado demais para deixar cicatriz.
Nota Yatta: 7 / 10


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