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terça-feira, 21 de julho de 2026

[Crítica] Águas Mortais

Com direção de Renny Harlin (“Duro de Matar 2”, “Os Estranhos”), o filme acompanha o desespero que toma conta da tripulação e dos passageiros de um voo que parte de Los Angeles com destino a Xangai. Quando um incidente ocorre no compartimento de carga, a aeronave vira palco de uma luta pela sobrevivência quando cai no meio do oceano. 


Os sobreviventes, que já precisam lidar com as consequências do acidente e as perdas irremediáveis, descobrem um novo pesadelo: as águas onde caíram são habitadas por tubarões famintos por sangue que não vão poupar ninguém. Agora, a única saída para o grupo é superar suas diferenças e se unir em busca de escapar vivo da situação. 

No elenco, estão incluídos nomes como Ben Kingsley (“A Lista de Schindler”), Aaron Eckhart (“Batman: O Cavaleiro das Trevas”), Molly Belle Wright (“Mistletoe Ranch”), Elijah Tamati (“Holy Days”), Wenhan Li (“Quase Amor”), Simei Zhao (“Behind the Scenes”) e Angus Sampson (“O Poder e a Lei”). 

Entregando Mais Que o Prometido

O filme tem uma boa vantagem, ao escolher Aaron Eckhart e Ben Kingsley para contracenarem como piloto e co-piloto, com boa profundidade mostrada em breves e sutis momentos desde o início. Mesmo com um título genérico e um tema que se tornou clichê nos anos 90 e 2000 (acidentes de avião e sobrevivência), o roteiro e a escolha de elenco transformam este em um ótimo filme, que prende atenção do início ao fim.

Até mesmo os atores mirins que fazem os meio irmãos Finn e Cora traem bastante intensidade em vários momentos, com emoções bem executadas. A trilha sonora , que em alguns momentos conta até com Ben Kinsgley cantando Frank Sinatra em um karaokê ou accapela, por exemplo, consegue ser um elemento leve e conciso.


O perigo sempre á espreita

Como era de se esperar, o filme usa a fórmula clássica de dois tipos distintos de filme, sendo um o "Disaster Movie" (acidente de avião) e o perigo dos tubarões (que foi bem forte a partir de JAWS, de Steven Spielberg, e se repetiu exaustivamente por algumas décadas), mas feito com sabedoria e maestria, dando um belo toque de suspense.

Alguns personagens mereciam um tempinho a mais de tela, mas ainda assim, tudo que foi entregue nas cenas, foi suficiente para dar angústia, torcida por alguns, comemoração em outros. O filme lida bastante com as idéias de culpa e arrependimento, na maioria das experiências pessoais, podendo dar muito mais contexto do que diálogos enormes.

 Veredito Final

Muito suspense, tubarões e motores pegando fogo, este filme tem um bom ritmo e é ótimo ver na telona do cinema, além de te fazer pensar muitas vezes antes de pegar um avião, e principalmente lhe traz uma mensagem importantíssima: JAMAIS leve power bank na sua mala!

Com distribuição Diamond Films, a maior distribuidora independente da América Latina, o aflitivo ÁGUAS MORTAIS estreia nacionalmente em 23 de julho. 

Nota: 8

sexta-feira, 12 de junho de 2026

[Crítica] Corações Jovens

 Existem filmes que tentam emocionar através de grandes reviravoltas, discursos impactantes ou tragédias pesadas. Corações Jovens segue pelo caminho oposto. O longa belga dirigido por Anthony Schatteman encontra sua força justamente na simplicidade.


A história acompanha Elias, um garoto que começa a descobrir sentimentos que nunca havia experimentado antes quando conhece Alexander. A partir daí, o filme constrói uma narrativa sobre primeiro amor, inseguranças e autodescoberta sem transformar isso em um grande drama. Tudo acontece de forma muito natural, quase como uma lembrança de adolescência que poderia pertencer a qualquer pessoa.

O que mais me chamou atenção foi a forma como o diretor confia nos seus personagens. Há muitos momentos em que o filme prefere um olhar, um silêncio ou uma expressão tímida em vez de explicar tudo ao espectador. Essa escolha dá autenticidade à história e faz com que as emoções pareçam reais. Lou Goossens e Marius De Saeger entregam atuações extremamente sinceras, sem exageros ou artificialidade.

Outro ponto forte é a atmosfera. A pequena vila onde a trama acontece transmite uma sensação de conforto, reforçada pela trilha sonora delicada de Ruben De Gheselle. É aquele tipo de filme que parece abraçar o espectador em vez de tentar chocá-lo.

Ao mesmo tempo, entendo algumas das críticas que a produção recebeu. Em determinados momentos, a história parece idealizada demais. Alguns conflitos familiares e sociais são resolvidos de maneira tão tranquila que podem soar otimistas além da conta. Dependendo da experiência de vida de cada espectador, isso pode passar uma sensação de conto de fadas.

Também não é um filme que reinventa o gênero coming-of-age. Quem já assistiu muitas histórias sobre amadurecimento e primeiro amor provavelmente reconhecerá vários elementos familiares. Além disso, o ritmo é bastante contemplativo e pode parecer lento para quem prefere narrativas mais movimentadas.
Mesmo assim, saí da sessão com uma impressão positiva. Em uma época em que tantas histórias sobre jovens LGBTQIA+ acabam focando exclusivamente na dor, no preconceito ou na tragédia, Corações Jovens escolhe falar sobre afeto, descoberta e esperança. Talvez não seja um filme revolucionário, mas é um filme necessário.

No fim das contas, Corações Jovens não tenta mudar o mundo. Ele apenas lembra que o primeiro amor, com todas as suas dúvidas e inseguranças, pode ser uma experiência bonita. E às vezes isso já é suficiente.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

[Crítica] Dia D (Disclosure Day)

 Steven Spielberg passou décadas ajudando o cinema a construir nossa imagem dos extraterrestres. De "Contatos Imediatos do Terceiro Grau" a "E.T.", ele sempre preferiu o fascínio ao medo. Em "Dia D", o diretor retorna a esse território familiar, mas agora através de uma história que mistura conspiração, memória perdida, política e uma pergunta capaz de mudar a humanidade para sempre: o que aconteceria se a verdade sobre a vida extraterrestre fosse finalmente revelada ao mundo?


A trama acompanha dois personagens cujas vidas parecem não ter ligação alguma: uma repórter responsável pela previsão do tempo em uma cidade do Kansas e um hacker que trabalha para uma empresa associada à defesa nacional dos Estados Unidos. Aos poucos, ambos descobrem que compartilham um passado em comum e que suas histórias estão ligadas a um segredo guardado há décadas.

Spielberg conduz essa jornada como poucos diretores conseguem fazer. Existe um forte senso de maravilhamento em cada descoberta, ao mesmo tempo em que a narrativa mantém um clima constante de mistério e perseguição. Em vários momentos, o filme lembra um herdeiro espiritual de "Contatos Imediatos" e "E.T.", não por compartilhar personagens ou acontecimentos, mas pelo mesmo olhar curioso e quase infantil diante do desconhecido.

Nem tudo funciona perfeitamente. Alguns efeitos visuais impressionam, mas em determinadas cenas a computação gráfica se aproxima do chamado vale da estranheza, causando um leve desconforto visual que destoa do restante da produção. Felizmente, são momentos pontuais em um filme visualmente bastante competente.


O aspecto mais interessante da obra talvez esteja nas discussões que ela provoca. O roteiro brinca com diferentes interpretações científicas, filosóficas e religiosas sobre a existência de vida extraterrestre. Para alguns personagens, a revelação representaria o colapso de antigas certezas. Para outros, seria apenas mais uma peça de um universo muito maior do que imaginamos.

A tensão criada em torno da possibilidade de décadas de documentos, registros e evidências serem exibidos ao vivo para toda a humanidade é o combustível que move a narrativa. E é justamente aí que Spielberg encontra seu tema favorito: não os alienígenas em si, mas a reação humana diante do impossível.

"Dia D" talvez não esteja entre os trabalhos mais revolucionários de sua carreira, mas prova que Spielberg continua dominando uma habilidade rara no cinema moderno: fazer o público sair da sala olhando para o céu e se perguntando se estamos realmente sozinhos.

Veredito: Um thriller de ficção científica com alma de aventura clássica, que mistura conspiração, emoção e questionamentos existenciais em uma história que parece conversar diretamente com os grandes sucessos extraterrestres da carreira de Spielberg.

[Crítica] Amor Apocalipse

O dono de um canil, lutando contra a ansiedade climática, se apaixona por uma atendente de serviço ao cliente por telefone. Em meio a um desastre natural, ele embarca em uma jornada romântica, bilíngue e aventureira para encontrá-la.

Quando o Fim do Mundo é Menos Assustador Que a Solidão

Existem filmes que você assiste pela história. Outros, pelos personagens. E existem aqueles que dependem completamente do estado de espírito de quem está assistindo. "Amor Apocalipse" pertence à terceira categoria.

A trama acompanha Adam, um homem extremamente sensível, consumido por ansiedade, inseguranças e preocupações existenciais. Dono de um canil, ele vive preso em uma rotina melancólica, incapaz de se conectar verdadeiramente com o pai ou de impor limites às pessoas ao seu redor. Sua vida começa a mudar quando uma simples ligação para o suporte técnico de uma lâmpada terapêutica o coloca em contato com Tina, uma atendente cuja voz parece oferecer exatamente aquilo que ele não consegue encontrar sozinho: conforto.

É importante deixar uma coisa clara para quem pretende assistir: apesar de ser divulgado como uma comédia romântica, o filme funciona muito mais como um drama romântico com pequenas doses de humor.

A primeira meia hora pode ser um desafio para alguns espectadores. O ritmo é lento, a trilha sonora é quase inexistente e a narrativa mergulha de cabeça nas angústias de Adam. A ansiedade do personagem é tão presente que, em alguns momentos, chega a ser desconfortável acompanhar seus pensamentos e sua forma de enxergar o mundo.

Mas é justamente quando Tina entra na história que o filme começa a respirar.

O encontro dos dois não transforma a narrativa em uma aventura romântica convencional, mas acrescenta leveza suficiente para equilibrar o peso emocional que dominava a trama até então. A partir desse ponto, o filme encontra um ritmo mais agradável, alternando momentos delicados de romance com pequenas situações inesperadas.

Algumas das melhores cenas surgem justamente desses desvios de rota: uma visita a um vendedor de maconha que quase termina em prisão, uma pequena vingança contra um antigo desafeto ou situações embaraçosas que revelam mais sobre os personagens do que longos diálogos seriam capazes de mostrar.

Quem procura grandes reviravoltas ou revelações chocantes talvez não encontre o que deseja aqui. "Amor Apocalipse" é um filme de observação. Ele está mais interessado em acompanhar pessoas tentando lidar com suas fragilidades do que em surpreender o público a cada quinze minutos.

Talvez sua maior qualidade seja justamente essa honestidade. O longa entende que nem toda história de amor nasce de gestos grandiosos. Às vezes ela surge no meio de um dia ruim, durante uma conversa inesperada, quando alguém aparece exatamente no momento em que você mais precisava ouvir uma voz amiga.

Não é um filme para todos os públicos. Mas quem aprecia dramas intimistas, romances discretos e personagens emocionalmente complexos pode encontrar aqui uma experiência bastante recompensadora.

No fim das contas, "Amor Apocalipse" fala menos sobre o fim do mundo e mais sobre algo muito mais assustador para muita gente: a sensação de enfrentar a vida sozinho.

Nota 7,0

terça-feira, 9 de junho de 2026

[Cinema] Hit Para Dois

A Comédia Trágica da Vida de Quem Faz Música. Rick é um cantor de casamentos que já sonhou alto. Danny é um ex-astro de boy band que viu a fama passar rápido demais. Quando os dois se encontram por acaso e acabam improvisando uma música durante uma jam session madrugada adentro, nasce uma amizade improvável. Mas tudo muda quando uma composição criada naquele encontro se transforma em um grande sucesso — e apenas um deles recebe os créditos.


Se você é músico, provavelmente vai se identificar com pelo menos uma parte dessa história.

Paul Rudd interpreta Rick Powers, um músico talentoso que vive tocando em casamentos enquanto guarda a frustração de nunca ter alcançado o sucesso que imaginou para sua carreira. Do outro lado está Danny Wilson, vivido por Nick Jonas, um cantor que experimentou a fama muito jovem, mas que, ao contrário de seus antigos colegas de banda, não conseguiu manter o mesmo nível de reconhecimento em carreira solo.

O interessante é que o filme não trata nenhum dos dois como herói ou vilão. Ambos carregam inseguranças, arrependimentos e sonhos que ficaram pelo caminho. E talvez seja justamente isso que faça a história funcionar tão bem.

Quando a Ficção Parece Real Demais

Uma das coisas que mais chamam atenção em "Hit Para Dois" é como ele retrata uma realidade conhecida por praticamente qualquer artista independente.

A maioria dos músicos nunca terá a oportunidade de tocar para multidões. Muitos passam anos compondo, ensaiando, gravando e divulgando suas músicas sem conseguir alcançar o público certo. Talento, infelizmente, nem sempre é suficiente.

Por isso, mesmo trabalhando dentro de uma trama relativamente simples, o filme acerta ao mostrar as frustrações, expectativas e até a inveja que podem surgir quando o sucesso bate à porta de alguém próximo.

Curiosamente, as músicas originais do longa foram compostas pelo próprio diretor e se misturam a clássicos do rock ao longo da narrativa, ajudando a construir a identidade musical do filme sem parecer forçado.


Um Conflito Que Poderia Ser Resolvido Com Uma Conversa

É impossível assistir sem pensar que boa parte dos problemas da trama poderia ter sido resolvida com uma conversa honesta.

Mas a vida real também é assim.

Muitas vezes, pequenas omissões, decisões impulsivas ou conselhos errados acabam gerando consequências muito maiores do que deveriam. O filme entende isso e explora essa ideia de forma natural, sem precisar recorrer a grandes reviravoltas ou exageros dramáticos.

Simples, Mas Eficiente

"Hit Para Dois" não tenta reinventar a roda.

Seu maior mérito está justamente em saber o que quer ser: uma comédia dramática leve, fácil de acompanhar e que funciona muito bem graças à química entre Paul Rudd e Nick Jonas.

Em vários momentos, o filme lembra produções como "Letra e Música", principalmente pela mistura entre humor, música e personagens tentando encontrar seu lugar em um mercado extremamente competitivo.

Também é curioso observar como Nick Jonas parece brincar com aspectos da própria trajetória artística, enquanto Paul Rudd entrega um personagem que precisa amadurecer justamente quando acredita já ter aprendido tudo sobre a vida.

Veredito

"Hit Para Dois" é daqueles filmes confortáveis de assistir. Não é uma obra revolucionária nem pretende ser. Em vez disso, entrega uma história sincera sobre amizade, ego, reconhecimento e as voltas inesperadas que a vida dá.

Para músicos, compositores e qualquer pessoa que já tenha sonhado em viver de arte, a identificação é quase inevitável.

Uma boa mistura de comédia e drama, com personagens carismáticos, uma trilha sonora competente e uma mensagem otimista sem cair no sentimentalismo exagerado. Um daqueles raros filmes que conseguem mostrar as dificuldades da vida artística sem perder a leveza.

Nota: 8/10

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Mestres do Universo | He-Man


Criada como um longo comercial televisivo de 22 minutos de duração, e exibida entre 1983 à 1985, a série de animação He-Man e os Mestres do Universo desenvolvida pelo estúdio Filmation em parceria com a gigante dos brinquedos Mattel, nasceu com o simples objetivo de dar suporte narrativo, ao que viria ser, uma das franquias de brinquedos mais populares dos anos 1980.



Como uma delicada carta de amor à série e seus personagens, o projeto de Travis Knight (Kubo e as Cordas Mágicas - 2015, e Bumblebee - 2018), busca revisitar as origens de He-Man, dos Mestres do Universo e do maligno Esqueleto, levando o espectador por uma nova jornada através das terras mágicas de Eternia, rica em detalhes e repleta de fan service.


A produção de 2026, lançada em 4 de junho, dá continuidade à estratégia adotada pela Mattel em Barbie (2023): transformar suas propriedades intelectuais em narrativas mais humanas e densas, aprofundando seus personagens e fortalecendo a conexão emocional com o público.



(Foto: Sony Pictures Entertaiment/Divulgação)

O longa acompanha o jovem e atrapalhado príncipe Adam (Nicholas Galitzine), herdeiro do trono de Eternia, que, após uma invasão devastadora causada pelas hordas de demônios de Esqueleto, é enviado com urgência pela Feiticeira (Morena Baccarin), para a realidade do planeta Terra ao lado da Espada do Poder, objeto que guarda todo o poder do reino. Forçado a deixar sua vida para trás, ele se torna a última esperança de salvação para seu povo.

Quase vinte anos depois, Adam vive como um adulto deslocado e sem perspectivas, em busca do artefato mágico, perdido ainda na infância. Dividindo um apartamento em meio a cidade e agora profissional de Recursos Humanos, evitando conflitos e preferindo o diálogo (uma clara menção as lições de moral que encerravam os episódios da série original).

Seu retorno a Eternia, porém, o coloca diante da missão de recuperar seu poder e restaurar a ordem em um reino devastado pelo caos e pela destruição semeados por Esqueleto.


(Foto: Sony Pictures Entertaiment/Divulgação)


Praticamente nada do visual original dos personagens foi alterado, algo perceptível desde os primeiros minutos. Um ponto importante a se destacar, porém, é a mudança na forma como Eternia e seus habitantes são retratados.

Aqui, o diretor opta por aprofundar seus personagens, afastando-os do simples conceito de eterna guerra entre bem e mal, que caracterizava a série original, e inserindo-os em conflitos mais complexos, envolvendo temas como alcoolismo, abandono, fuga e relacionamentos abusivos. 

Longe de ser um aspecto negativo, essa abordagem acrescenta uma camada extra de profundidade e contexto à narrativa, tornando seus personagens mais humanos e suas motivações mais compreensíveis.


(Foto: Sony Pictures Entertaiment/Divulgação)


O desenvolvimento da trama é um dos pontos fortes da produção. O longa mantém um ritmo consistente e dosado, equilibrando ação, humor e drama sem se alongar além do necessário. Não há pancadarias enfadonhas, nem momentos melodramáticos em demasia quebrando a experiência.

Cada elemento introduzido pela narrativa recebe atenção adequada e encontra uma resolução satisfatória. Simples, direto e eficiente, sem espaço para pontas soltas no roteiro. 


(Foto: Luiz Rodrigues/Jam Station)


Provando mais uma vez que é muito mais do que um rostinho bonito esculpido em uma montanha de músculos, Nicholas Galitzine (Vermelho, Branco e Sangue Azul - 2019) entrega um personagem surpreendentemente rico, transitando com naturalidade entre situações contrastantes e nuances emocionais distintas. 

O resultado vai muito além da caricatura do brutamontes de tanguinha e peruca chanel que marcou o imaginário popular ao longo dos anos cantando What's Going On do 4 Non Blonds com um fundo psicodélico.  

Adam não é um personagem excessivamente sério, mas também não se transforma em uma máquina de piadas (Oi, Thor) fora de contexto apenas para arrancar risadas da plateia. O equilíbrio entre humor e drama é um dos pontos fortes da interpretação.

Jared Leto (Tron: Ares - 2025), mesmo oculto sob o pesado trabalho de CGI aplicado ao personagem durante a pós-produção, ainda encontra espaço para brilhar com um eficiente trabalho de captura de movimentos apresentado no crânio de Esqueleto, e atuação vocal, ajudando a dar personalidade ao vilão.


(Foto: Sony Pictures Entertaiment/Divulgação)


Se distanciando de tendências recentes em direção de arte e fotografia, o longa não adere a paletas desbotadas e ambientação excessivamente escura e com pouca iluminação, característica presente em muitas produções atuais. Pelo contrário, Eternia surge como um universo vibrante e repleto de detalhes, com biomas que se diferenciam a cada novo cenário, esbanjando cores e uma iluminação rica e cuidadosamente trabalhada.

A fotografia merece uma menção honrosa, sendo uma das grandes responsáveis por integrar efeitos práticos e CGI em uma fusão tão eficiente que, em diversos momentos, torna-se difícil distinguir onde termina o cenário físico e onde começa a computação gráfica.

(Foto: Sony Pictures Entertaiment/Divulgação)


Contando com nomes de peso como o compositor Daniel Pemberton (Devoradores de Estrela – 2026 e Os Caras Malvados – 2025), colaborações de Brian May, guitarrista do Queen, e uma música-tema composta e interpretada pela banda The Darkness, "Masters of the Universe", a trilha sonora traz temas nostálgicos fortemente inspirados no pop rock e no synth pop dos anos 80, inseridos de forma orgânica entre as cenas, sem parecerem forçados ou colocados ali apenas para preencher espaço.




Mestres do Universo chega aos cinemas como uma tentativa bem-sucedida de revitalizar um clássico da década de 80 de forma leve e acessível.

O longa entrega um bolo robusto: recheado de nostalgia e referências para os fãs de longa data, mas também decorado com elementos capazes de atrair um público mais jovem ou aqueles que jamais tiveram contato com a série animada ou com a linha de brinquedos da Mattel.

O resultado é uma aventura despretensiosa, brega (no bom sentido) e que ri de si mesma, funcionando tanto para quem cresceu assistindo ao cartoon, quanto para quem procura apenas um filme divertido e visualmente interessante para toda a família.



Mestres do Universo (Masters of the Universe)
04 de Junho de 2026 - 140 Minutos - Amazon MGM Studios / Sony Pictures Entertainment

País: EUA
Gênero: Espada e Feitiçaria, Ação, Fantasia
Direção: Travis Knight
Roteiro: Chris Butler, Irmãos Nee, Alex Litvak, Michael Finch
Elenco: Nicholas Galitzine, Camila Mendes, Idris Elba, Jared Leto

★★★★


quarta-feira, 27 de maio de 2026

[Cinema] Chopin, Uma Sonata Em Paris

 Você teria coragem de transformar um dos maiores gênios da música clássica em uma estrela do rock boêmia e sarcástica? Pois é exatamente isso que o filme "Chopin, uma Sonata em Paris" faz. E olha... isso dividiu completamente a opinião do público e da crítica!


OS PONTOS POSITIVOS (O que brilha)

Se você vai ao cinema esperando aquela cinebiografia tradicional, lenta e certinha... esquece. O diretor Michał Kwieciński desconstrói o mito do poeta melancólico. O Chopin aqui é humano, cheio de defeitos, irônico e magnético.

A atuação do Eryk Kulm tá sendo aclamada no mundo todo — ele entrega um carisma surreal mesmo quando a tuberculose consome o personagem. Sem falar na fotografia e na reconstrução de Paris, que são visualmente deslumbrantes. É um banquete para os olhos e para os ouvidos!

OS PONTOS NEGATIVOS (Os problemas)

Mas nem tudo são notas perfeitas. Muita gente reclamou que o roteiro é fragmentado, e de fato, é. Personagens históricos importantes, como Franz Liszt, entram e saem da tela sem desenvolvimento, o que corta um pouco a conexão emocional.

Além disso, o filme mergulha fundo na decadência física e no sofrimento do Chopin. Para os puristas, o longa pesou a mão no drama e ignorou fatos reais importantes do final da vida dele.

CONCLUSÃO

Meu veredito? Vale muito o ingresso se você desapegar do livro de história e aceitar um drama psicológico intenso sobre a finitude.

Mas e você, já assistiu ou ficou curioso? Deixa aqui nos comentários se você prefere biografias mais certinhas ou essas mais ousadas!

terça-feira, 5 de maio de 2026

“A Morte do Demônio: Em Chamas” ganha primeiro trailer. Filme estreia dia 9 de julho nos cinemas do Brasil

 Com distribuição da Sony Pictures, novo capítulo da franquia propõe uma experiência selvagem e aterrorizante 


O novo capítulo da franquia “Evil Dead/Morte do Demônio” chega aos cinemas do Brasil no dia 9 de julho com a proposta de promover uma experiência ainda mais selvagem e aterrorizante nas telonas. Intitulado “A Morte do Demônio: Em Chamas”, o filme acaba de ter o trailer divulgado pela distribuidora Sony Pictures. A direção do longa é do cineasta francês Sébastien Vaniček (“Infestação”), que também assina o roteiro ao lado de Florent Bernard, com produção de Sam Raimi e Rob Tapert, responsáveis pelos filmes originais. O elenco é formado por Souheila Yacoub (“Clímax” e “Duna: Parte 2”), Tandi Wright (“Pearl”), Hunter Doohan (“Wandinha”), Luciane Buchanan (“O Agente Noturno”), entre outros.

Na trama, após perder o marido, uma mulher busca consolo com os sogros em sua casa de família isolada. Contudo, um a um, eles são transformados em Deadites - criaturas demoníacas -, o que torna o encontro uma reunião diretamente saída do inferno.  

Criada por Sam Raimi (trilogia do “Homem-Aranha”), a franquia de terror sobrenatural foi iniciada em 1981 e, até o momento, tem cinco filmes e uma série. “A Morte do Demônio: Em Chamas” marca a chegada do sexto longa-metragem. 

SINOPSE 

A Morte do Demônio: Em Chamas desencadeia a experiência mais selvagem e aterrorizante da franquia até hoje, chegando às telonas com um capítulo totalmente novo de carnificina e caos demoníaco. Após a perda do marido, uma mulher busca consolo com os sogros em sua casa de família isolada. À medida que, um a um, eles são transformados em Deadites — transformando o encontro em uma reunião familiar saída do inferno — ela descobre que os votos que fez em vida continuam… mesmo na morte. 

 FICHA TÉCNICA 

Direção: Sébastien Vaniček  

Roteiro: Florent Bernard e Sébastien Vaniček 

Produção: Rob Tapert e Sam Raimi 

Produção Executiva: Romel Adam, Bruce Campbell, Lee Cronin e Jose Canas 

Elenco: Souheila Yacoub, Tandi Wright, Hunter Doohan, Luciane Buchanan, Errol Shand, George Pullar, Maude Davey e Greta Van Den Brink. 

terça-feira, 31 de março de 2026

[Crítica] O Drama

 Robert Pattinson e Zendaya protagonizam este filme sobre um casal e seus dias de preparação para o dia mais importante de suas vidas: seu próprio casamento!


O filme consegue ser um misto de drama, humor negro, com aquele ar de suspense/thriller, que te faz tentar desvendar os próximos passos, até o final, e mostra várias nuances da mente humana, quando algo inesperado é revelado.

O ritmo do filme consegue ser leve, ao misturar tensão e romance numa dosagem homeopática, carregado de uma edição não linear em certos momentos, que te faz parar pra pensar o que realmente está acontecendo, e o que é imaginação, quase como em "500 dias com Ela", mas, mais dinâmico.

Essa dupla improvável de Hollywood consegue ter boa química em tela, o que nos faz torcer para que tudo acabe bem. Há mais de uma mensagem importante como tema deste filme, mas, com certeza, o mais impactante é o sentimento de ansiedade, e suas consequências possíveis, sendo mostradas de forma nua e crua.

Este é um dos poucos filmes atuais que fala sobre como funciona o amor, mesmo que ele seja contraditório, e funciona bem, com cada elemento se encaixando. A trilha sonora tem impacto em poucos momentos, enquanto os cortes conseguem ser um ótimo destaque, ao fazer o público duvidar de si mesmo durante cada cena de impacto.

É um filme que supera expectativas, mas sempre no limite do estilo de Kristoffer Borgli.

Nota: 7,5

sexta-feira, 13 de março de 2026

[Crítica] Devoradores de Estrelas

 Ryan Gosling no espaço: quando Interestellar bate de frente com o humor lúdico!


Quando o universo depende de um professor cansado: a beleza nerd de Devoradores de Estrelas

À primeira vista, Project Hail Mary, conhecido no Brasil como Devoradores de Estrelas, parece só mais uma ficção científica sobre o fim da humanidade. Mas não se engane: Essa não é uma história sobre explosões espaciais, invasões alienígenas ou presidentes discursando dramaticamente enquanto um meteoro vem destruir a Terra.

Na verdade, é algo muito mais perigoso para o cinema moderno: uma história sobre ciência funcionando. Sim. Aquela "coisa chata chamada ciência" (por assim dizer).

O apocalipse mais silencioso do cinema

A premissa é simples e assustadora.

Um microrganismo alienígena começa a consumir energia das estrelas — incluindo o nosso Sol.

Resultado: o planeta Terra caminha lentamente para uma era glacial global.

Sem explosões. Sem alienígenas atacando cidades. Só uma morte lenta e gelada. É quase poético.

A humanidade não seria destruída pela guerra ou pela tecnologia… mas por uma bactéria espacial com fome de energia.

O herói improvável

O protagonista da história é Ryland Grace, interpretado no filme por Ryan Gosling.

E aqui está uma das maiores qualidades da obra: Grace não é um herói. Ele não é um comandante lendário nem um astronauta cheio de frases épicas. Ele é um professor de ciências do ensino fundamental. Um cara que provavelmente passaria a vida inteira explicando por que vulcões existem para crianças entediadas.

Mas quando o Sol começa a morrer, é exatamente esse tipo de pessoa que acaba sendo enviado para o espaço. 

E isso já é uma crítica social maravilhosa: quando o mundo realmente precisa ser salvo, quem resolve o problema não são influencers, políticos ou bilionários. São cientistas. E professores.

Rocky: o alienígena mais simpático da ficção científica moderna

No sistema estelar Tau Ceti acontece o encontro que transforma a história. Grace descobre que não está sozinho tentando salvar sua estrela. Outra civilização também está lá. E dessa nave surge Rocky.

Rocky é um alienígena que parece uma mistura de aranha com tanque de guerra e se comunica através de acordes musicais. Sim. Um alienígena que fala em música. O que poderia ser ridículo se torna simplesmente genial. Porque a relação entre Grace e Rocky vira o coração da história. Eles não brigam. Não competem. Não discutem política interestelar. Eles fazem algo extremamente radical: tentam se entender.

Ciência como espetáculo

O grande desafio da adaptação cinematográfica era transformar um livro cheio de experimentos científicos em algo visualmente interessante. E o filme consegue isso surpreendentemente bem.

O organismo alienígena conhecido como Astrophage é representado como partículas negras que absorvem energia de forma quase hipnótica. É ciência transformada em espetáculo visual.

Mas sem abandonar a lógica científica que torna a história tão fascinante. Algo que lembra o melhor de filmes como Interstellar ou Arrival.

Humor no meio do apocalipse

Outro elemento que funciona muito bem é o humor. Grace reage às situações absurdas exatamente como qualquer pessoa reagiria. Quando ele descobre que existe um alienígena na nave ao lado, sua reação não é filosófica.

É basicamente: “Ok… isso definitivamente não estava no manual.”

Esse humor lembra bastante o estilo de Andy Weir, autor do livro. O mesmo responsável por The Martian, outra história onde um cientista tenta sobreviver usando ciência… e sarcasmo.

A amizade mais improvável do espaço

Mas no fundo, Devoradores de Estrelas não é sobre salvar o Sol. É sobre amizade. A relação entre Grace e Rocky é construída com paciência, curiosidade e cooperação científica.

Eles começam trocando números. Depois palavras. Depois piadas. E quando percebemos, dois seres de planetas completamente diferentes se tornaram parceiros tentando salvar suas espécies. Isso é algo raríssimo na ficção científica moderna. Não é uma história sobre conflito entre civilizações. É uma história sobre colaboração entre inteligências.

Uma crítica social silenciosa

Talvez a maior mensagem da história seja esta: o mundo não é salvo por grandes discursos.

Ele é salvo por pessoas curiosas o suficiente para fazer perguntas e pacientes o suficiente para testar hipóteses.

Em outras palavras:

o mundo é salvo por nerds.

Conclusão

Devoradores de Estrelas é uma raridade. Uma ficção científica que acredita na inteligência. Uma história sobre amizade entre espécies. E um lembrete de que o conhecimento ainda pode ser a ferramenta mais poderosa da humanidade. No fim das contas, o universo não foi salvo por armas gigantes. Foi salvo por dois cientistas de espécies diferentes tentando resolver um problema juntos.

E honestamente? Isso é muito mais inspirador do que qualquer explosão de blockbuster.

Até porque, como a própria história sugere… talvez o verdadeiro milagre do universo não seja a vida.

Talvez seja duas formas de vida completamente diferentes conseguirem se entender.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

[Crítica] Manual Prático Da Vingança Lucrativa

 Se no pós-guerra britânico a aristocracia era o alvo preferido da ironia elegante, em 2026 o bilionário é o novo duque — e o sangue continua sendo o método mais direto de ascensão social. Manual Prático da Vingança Lucrativa (título internacional: How to Make a Killing) pega a espinha dorsal do clássico humor negro sucessório e a injeta com ansiedade millennial, capitalismo tardio e um protagonista que sorri como quem vende startup — enquanto cava sete covas.

Ficha Técnica
Título: Manual Prático Da Vingança Lucrativa
Ano de Produção: 2026
Dirigido Por: John Patton Ford
Estreia: 26 de Fevereiro de 2026
Duração: 1h40m
Classificação: 16
Gênero: Humor Negro/Thriller
País de Origem: Estados Unidos
Sinopse: Renegado ao nascer por sua família rica, Becket Redfellow não mede esforços para recuperar sua herança, não importa quantos parentes fiquem em seu caminho.

 

Um Conto Curioso

Dirigido com ritmo afiado e estética de thriller financeiro polido, o filme acompanha Becket Redfellow (Glen Powell), filho da herdeira deserdada que decide transformar ressentimento em plano de negócios. O objetivo? Eliminar, um a um, os parentes que o separam de uma fortuna obscena. O diferencial aqui não está apenas na contagem de corpos, mas na embalagem: cada morte funciona como uma sátira personalizada do arquétipo que a vítima representa.

O primo influencer morre como viveu — superficial e performático. O artista pretensioso é vítima da própria aura de superioridade. O pastor moralista encontra um fim que desmonta sua fachada pública. A tia autoritária cai como quem tropeça no próprio pedigree. O magnata corporativo sucumbe num arranjo que parece auditoria divina. O tio “bondoso” é o ponto de inflexão moral — ou quase — da narrativa, aquele momento em que o roteiro testa se Becket ainda possui algo semelhante a um coração. E o patriarca? O confronto final transforma herança em duelo ideológico: velho dinheiro versus ambição ressentida.

Arrependimentos?

É aqui que o filme revela seu maior trunfo e sua maior limitação. Ao contrário do cinismo quase clínico do original, esta versão insiste em oferecer fissuras emocionais ao protagonista. Becket hesita? Talvez. Arrepende-se? Não exatamente. O roteiro flerta com a ideia de conflito moral, mas nunca a abraça de verdade. Ele não é um sociopata puro — é um oportunista racionalizado. O problema é que, ao tentar humanizá-lo, o filme dilui parte da acidez que tornaria a jornada mais desconfortável (e, paradoxalmente, mais honesta).

O triângulo amoroso sintetiza essa tensão. Julia (Margaret Qualley) é a chama cúmplice: ambiciosa, ambígua, sedutora na medida exata do perigo. Ela não apenas deseja Becket — deseja o que ele pode se tornar. Já Ruth (Jessica Henwick) encarna o contraponto moral, a possibilidade de uma vida comum, quase banal. Não se trata apenas de duas mulheres disputando um homem, mas de dois futuros competindo por uma consciência. E o filme é mais interessante quando transforma romance em campo de batalha ético.

A Imagem Diz Tudo

Visualmente, a obra aposta numa sofisticação fria: mansões minimalistas, jantares silenciosos, closes que capturam microexpressões de cálculo. Há algo de thriller corporativo misturado com comédia de costumes — uma combinação que funciona melhor nas mortes mais irônicas do que nos momentos introspectivos. Quando abraça o humor negro, o filme brilha; quando tenta ser drama psicológico, perde parte da mordida.

Inevitável falar do ancestral ilustre. Kind Hearts and Coronets (lançado no Brasil como As Oito Vítimas) é uma obra-prima de elegância cruel. Lá, o protagonista eliminava seus obstáculos com uma frieza quase burocrática, enquanto a sátira à aristocracia britânica era tão seca quanto devastadora. A grande diferença? O clássico não pede desculpas. Não oferece redenção emocional. Não suaviza seu anti-herói. Já Manual Prático da Vingança Lucrativa é filho de seu tempo: precisa justificar, contextualizar, "psicologizar". Se o original era um sorriso envenenado, o novo é um pitch deck com manchas de sangue.

Veredicto Final

No fim, o filme funciona como retrato ácido do sonho americano distorcido: meritocracia como desculpa para eliminar concorrentes — literalmente. Não é tão cirurgicamente cruel quanto o clássico, mas tem energia, charme e um protagonista carismático o suficiente para fazer você torcer — ainda que contra seu próprio juízo.

E talvez essa seja sua maior ironia: em 1949, matar por título era absurdo aristocrático. Em 2026, matar por bilhões soa quase como estratégia de mercado.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

[Crítica] Sr Blake Ao Seu Dispor

 Quando o luto vira gentileza — e o conforto vira limite


Existe um tipo muito específico de filme que não quer te impressionar.
Ele não quer gritar, não quer correr, não quer te sacudir pela gola.
Ele só quer sentar do seu lado, servir um chá quente e perguntar, com educação quase constrangedora:
“Você está bem?”

Sr. Blake ao Seu Dispor é exatamente esse tipo de filme.

John Malkovich interpreta Andrew Blake, um homem que já viveu tudo o que precisava viver — e agora só está sobrevivendo. A morte da esposa não é um gatilho narrativo espetacular, é um vazio silencioso. E isso já diz muito sobre a proposta do filme: aqui, o drama não vem em ondas, vem em goteiras.

Blake volta à França tentando reencontrar algo que não sabe mais se existe. E, por um erro quase cômico — mas nunca caricato — acaba virando mordomo de uma mansão decadente, cercado por pessoas tão quebradas quanto ele. Cada uma à sua maneira. Cada uma fingindo funcionar.

O charme está no humano — e o risco também

O maior acerto do filme é também seu maior risco:
ele aposta 100% em humanidade, e 0% em pressa.

Não há grandes viradas.
Não há discursos inflamados.
Não há catarse hollywoodiana.

O que existe são olhares, silêncios, pequenas vergonhas sociais, desconfortos sutis e uma comédia que surge mais do absurdo da convivência humana do que de piadas propriamente ditas.

John Malkovich está confortável — talvez até demais. Ele carrega o filme com presença, mas não com intensidade explosiva. É um trabalho de contenção. De alguém que já chorou tudo o que tinha pra chorar e agora só anda com os cacos no bolso.

Fanny Ardant funciona como contraponto elegante, quase etéreo. Os personagens secundários existem menos para “arcos” e mais para reflexos. São espelhos quebrados, não trajetórias heroicas.

Por que o filme divide tanto o público?

Porque Sr. Blake ao Seu Dispor não quer agradar todo mundo.
E, ao mesmo tempo, quer ser gentil demais com quem assiste.

Parte da crítica viu charme, sensibilidade e calor humano.
Outra parte viu um filme frouxo, sem ritmo, sem coragem de ir além da própria delicadeza.

E as duas estão certas.

O filme é bonito, mas previsível.
É sensível, mas seguro.
É aconchegante, mas raramente desafiador.

Em alguns momentos, ele parece aquele amigo que tem algo muito profundo para dizer… mas prefere não incomodar ninguém com isso.

O luto como espaço, não como conflito

O luto aqui não é superado.
Ele é habitado.

E isso é honesto.
Mas também limita a narrativa.

O filme prefere ficar nesse estado de suspensão emocional, como se tivesse medo de quebrar o clima. Não há grande confronto interno, apenas pequenas reorganizações afetivas. Isso pode ser lindo para quem está no mesmo estado de espírito — e entediante para quem espera transformação.

Talvez o maior problema seja esse:
o filme termina quase do mesmo jeito que começa, só um pouco menos triste.

Um filme que abraça — mas não empurra

Sr. Blake ao Seu Dispor é um filme sobre continuar vivendo quando já não se espera nada da vida. Ele entende a dor, respeita o silêncio e acredita na gentileza como último gesto de resistência.

Mas também é um filme que evita riscos narrativos, que não se permite ser feio, duro ou verdadeiramente desconfortável. Ele prefere o tom agradável à verdade mais áspera.

Ainda assim, há valor nisso.
Nem todo filme precisa te destruir.
Alguns só querem te acompanhar.

Veredito final

Sr. Blake ao Seu Dispor é uma comédia dramática delicada, bem-intencionada e emocionalmente honesta — mas que joga excessivamente seguro.

Funciona melhor como experiência sensorial tranquila do que como história memorável. É um filme para quem está cansado, não para quem quer ser provocado.

Não é ruim.
Não é incrível.
É humano.

E, às vezes, isso basta. Bonito, gentil… e talvez educado demais para deixar cicatriz.

Nota Yatta: 7 / 10

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Wicked: Parte II

Não surpreende que Wicked: Parte I tenha sido um grande sucesso mundial. O premiado cineasta Jon M. Chu já provou por diversas vezes que conhece a fórmula perfeita para traduzir toda a magia dos palcos para as grandes telas.



Junto de sua amiga de longa data e diretora de fotografia, Alice Brooks, ele trabalhou ao longo de vinte anos, em diversos projetos do gênero (Se Ela Dança, Eu Danço 2 e 3, Em um Bairro de Nova York, Jem e as Hologramas).

Agora, possui a difícil missão de entregar uma conclusão digna para uma obra que arrecadou cerca de US$ 756 milhões (R$ 4 bilhões) mundialmente e recebeu 10 indicações ao Oscar, levando duas estatuetas (Melhor Figurino - Paul Tazewell, e Melhor Design de Produção - Nathan Crowley).


(Foto: Universal Pictures/Divulgação)

Podemos definir o mote de Wicked: Parte II como “contrastes e mudanças”.
Isso fica claro ao sermos apresentados a uma Elphaba (Cynthia Erivo) mais madura, empoderada e segura de suas habilidades mágicas, porém reclusa, perseguida, demonizada, e agora conhecida pelos quatro cantos das terras de Oz como a grande Bruxa Má do Oeste.

De pronto, a trama estabelece o clima que irá manter até seus últimos minutos. 
Em contraste com a primeira parte, o filme traz um tom mais sério e soturno, cenas de maior foco em ação, planos de câmera mais dinâmicos e efeitos visuais abrangentes.

O longa mantém seu premiado design de produção, com efeitos práticos e pós edição em CGI, uma mesclagem de técnicas que funciona de forma eficiente e coesa em grande parte, mas parece, ainda, que não conversa com a fotografia apresentada, essa que por sua vez  lava suas cores e tenta apagar seu charme por meio de uma iluminação defeituosa, principalmente em cenas noturnas. 

Dessa vez Oz é apresentada de forma mais ampla ao espectador. Saindo da Universidade Shiz, fora das fronteiras da Cidade das Esmeraldas, somos levados até lugares mais interessantes do mapa. 

Além do arco-íris “vivenciamos”, finalmente, a Estrada de Tijolos Amarelos (ainda em construção), a Munchkinlândia e sua arquitetura fantasiosa revestida por arte nouveau e pitadas de steampunk; as profundas florestas de Oz, e o covil de Elphaba em um dos castelos abandonados da família Tigelaar.

Os cenários são sólidos, mas falham em raras ocasiões, já presentes anteriormente, onde extensões em chroma key eram evidentes e a falta de profundidade ficava clara em alguns ambientes.

Com maior tempo de tela, os animais marcam retorno em Wicked: Parte II, e por sua vez, a animação CGI dos personagens é um show à parte. O longa não repete erros de produções recentes, onde animais antropomórficos são retratados de forma extremamente realista, sem qualquer expressão facial ou corporal.


(Foto: Universal Pictures/Divulgação)


Jon M. Chu tenta manter a obra o mais fiel possível a já vista nos palcos da Broadway, mas fãs mais assíduos do musical percebem com rapidez algumas mudanças. 
Com o objetivo de preencher lacunas, explicar contextos, e ganhar um maior peso emocional no enredo – o que o musical acaba deixando de lado por falta de tempo, o diretor adiciona novas interludes, remaneja algumas estruturas, modifica atos inserindo novos personagens e inclui duas novas canções. 

No Place Like Home e The Girl in the Bubble, interpretadas por Cynthia Erivo e Ariana Grande, respectivamente, estão presentes para um maior apoio de desenvolvimento de personagem, as humanizando e elucidando sua evolução pessoal desde o início da história, o modo como estão lidando com as consequências de seus atos e relações conturbadas.

Elphaba e sua jornada pelo autoconhecimento, a luta contra a discriminação em Oz, e a causa dos animais silenciados. Glinda - A boa, e seu dilema de menina rica e mimada, vivendo o glamour que a bondade mascarada pode trazer, e finalmente, descobrindo que o mundo não gira em torno de seu pedestal. 

Compostas por Stephen Schwartz, premiado compositor americano de teatro, as duas canções integram perfeitamente a trilha do musical, sem muita diferenciação do material original. Embora ótimas novidades, a música interpretada por Erivo soa mais interessante em sua melodia e vocais.

Apesar do esforço do diretor em tentar encaixar situações e deixar as coisas as mais fluídas possíveis, é inegável que algumas cenas pareçam desconexas e perdidas no roteiro, alí só para contextualizar um ponto crucial na trama.

(Foto: Universal Pictures/Divulgação)

Assim como no musical, personagens secundários da primeira parte dão as caras por menos de cinco minutos, e logo após são esquecidos sem qualquer tentativa de conclusão ou destino. É o caso de Pfannee (Bowen Yang) e Shen Shen (Bronwyn James), que apenas aparecem em duas cenas.

Dorothy (Bethany Weaver), o grande mistério do elenco, surge de forma resumida –  até mais que no musical da Broadway, diria. Não que o filme tente esconder a identidade da garotinha do Kansas, a qual aparece apenas em closes estratégicos e que foquem no que interessa para a trama, como sua chegada, os sapatinhos de Nessarose (Marissa Bode), e o encontro com o Maravilhoso Mágico de Oz (Jeff Goldblum). Mas em momento algum dá abertura para um envolvimento maior.

Como mencionado por Jon M. Chu em uma entrevista a revista digital “TheWrap”, com a intenção de não interferir na imagem que o espectador tem da personagem vinda diretamente da obra original que Wicked foi derivado, e focar em Elphaba e Glinda, decidiu por omiti-la: “Ela é um peão em um jogo que não é dela”, declarou o diretor.

Glinda (Ariana Grande-Butera) recebe um aprofundamento necessário – o arco dramático da personagem está longe de ser considerado raso, mas a atuação deixa a desejar em momentos de maior tensão dramática, onde a atriz não consegue transmitir a emoção do personagem ao público e não convence.

Outros personagens como Fiyero (Jonathan Bailey) e Bok (Ethan Slater), ganham maior relevância e peso no enredo, com números musicais de maior impacto. Curiosamente não necessariamente com maior tempo de tela, mas o necessário para usufruírem de todo o aparato de efeitos especiais da pós da produção.

(Foto: Universal Pictures/Divulgação)


O longa traz o clímax da História não contada das Bruxas de Oz de forma grandiosa.
Mantém o que musical já faz de forma expandida, preenche lacunas que poderiam ser mal compreendidas, aprofunda o que já havia sido desenvolvido e melhora o que o primeiro ato já entregava.

O musical flui de forma natural. Emociona na medida (mesmo que a atuação superficial de Ariana Grande atrapalhe um pouco em cenas de maior impacto, o que é balanceado pela desenvoltura de Cynthia Erivo).

Apresenta os mesmo problemas em fotografia e montagem, tenta evoluir uma coisa aqui e ali, mas não é o suficiente. Nada que atrapalhe os olhos desavisados, mas tem algo que falta na obra, visualmente falando.

O filme funciona perfeitamente mesmo para aqueles que não conhecem nada da história. Deve agradar a fãs de Wicked, musicais no geral, e curiosos que estão experimentando o universo de Oz.

Não é perfeito, mas chega ao ponto do que se propõe. Em comparação a outros musicais, é um dos melhores traduzidos para as telonas.







Wicked: For Good

Wicked: Parte II
 (Wicked: For Good)
20 de Novembro de 2025 - 137 Minutos - Universal Pictures

País: EUA
Gênero: Fantasia/Musical
Direção: Jon M. Chu
Roteiro: Winnie Holzman, Danna Fox, Gregory Maguire

Elenco: Cynthia Erivo, Ariana Grande-Butera, Michelle Yeoh, Jeff Goldblum, Jonathan Bailey, Ethan Slater, Marissa Bode, Colman Domingo, Bowen Yang, Bronwyn James

★★★★☆