O mercado brasileiro de quadrinhos ainda tem muitos artistas que produzem, publicam e vendem seus próprios trabalhos sem necessariamente conseguir chegar às grandes editoras ou estabelecer contato com empresas do setor. É justamente nesse espaço que o Comic Market Brasil pretende atuar.
Em sua segunda edição, o evento amplia a estrutura e a programação e recebe o mangaká japonês Hideki Tsuji, conhecido por Souten no Ken REGENESIS, para um encontro que pretende aproximar ainda mais os mercados de quadrinhos do Brasil e do Japão.
Durante uma coletiva de imprensa realizada antes do evento, os organizadores apresentaram as novidades da edição de 2026 e Tsuji falou sobre sua carreira, suas referências, inteligência artificial, tokusatsu, diferenças entre os mercados brasileiro e japonês e até sobre a possibilidade de trabalhar futuramente com artistas do Brasil.
De encontro de fãs a espaço para negócios
Segundo Thiago Spyked, diretor e sócio do Comic Market Brasil, a ideia nasceu de uma dificuldade que ele próprio observou durante sua trajetória profissional.
O Brasil possui uma produção grande de quadrinhos independentes, mas muitos desses trabalhos permanecem restritos a círculos pequenos. Faltaria, na visão dos organizadores, uma ponte entre os criadores e o restante da cadeia profissional.
Por isso, o Comic Market Brasil foi estruturado em três frentes: educação, negócios e produção artística.
O Comic Learning oferece aulas e masterclasses. O Comic Business coloca artistas em contato com empresas de áreas como impressão, animação, 3D, aplicativos e registro de marcas. Já a área de artistas funciona como espaço para autores e editoras apresentarem suas obras.
A intenção é simples, mas ambiciosa: fazer com que um artista não precise apenas criar uma boa história, mas também encontre caminhos para transformá-la em carreira.
Primeira edição deixou uma comunidade
A experiência de 2025 parece ter dado força ao projeto.
Os organizadores relataram que o Instagram do evento chegou a cerca de 1 milhão de visualizações e posteriormente ultrapassou 1,2 milhão. O perfil também cresceu de aproximadamente 7 mil seguidores para quase 12 mil.
Mas, para Thiago e Henrique, o dado mais significativo foi outro.
Durante semanas depois da primeira edição, o público continuou falando espontaneamente sobre o Comic Market Brasil. Vídeos, fotos e outros conteúdos foram publicados por criadores sem que houvesse uma solicitação da organização.
A percepção dos responsáveis pelo evento foi de que havia surgido algo mais difícil de medir: uma comunidade.
Mais espaço, mais artistas e novas experiências
A edição de 2026 será maior.
A FAPCOM, na Vila Mariana, receberá quatro andares do evento, contra três utilizados no ano anterior. A área de artistas terá 70 mesas, número que, segundo a organização, já representa o limite de espaço disponível.
Entre as novas atividades está a Arena Portfólio Review, que permitirá aos participantes apresentar seus trabalhos a profissionais e receber avaliações.
Outra novidade é o Comic Pit. A dinâmica coloca autores diante de empresários para apresentar projetos autorais de quadrinhos em uma rodada de negócios inspirada no formato de Shark Tank.
A proposta é particularmente interessante para quem pretende transformar uma história independente em propriedade intelectual e precisa aprender a apresentar o projeto de maneira profissional.
Também fazem parte da programação a Quest do CMB, que transforma o evento em uma espécie de gincana; uma loja com produtos exclusivos; podcast ao vivo; espaço para jogos de mesa; apresentações de projetos de animação; degustação de café; desafios de patrocinadores e sorteios.
O resgate da memória dos quadrinhos brasileiros
A organização também quer olhar para o passado.
Em 2026, o artista homenageado será Eli Barbosa. Henrique, um dos responsáveis pelo evento, explicou que existe uma preocupação em recuperar a memória de profissionais brasileiros que tiveram importância para a indústria e que acabaram ficando esquecidos pelo grande público.
Barbosa teve uma carreira importante nas décadas de 1970, 1980 e 1990, com atuação em animação, personagens, licenciamento e merchandising.
O evento terá uma exposição dedicada ao artista e também realizará a oitava edição do Prêmio Eli Barbosa, voltado a profissionais que trabalharam com quadrinhos durante as décadas de 1970 e 1980.
É uma maneira de lembrar que a história dos quadrinhos brasileiros não começou com a geração atual — e que muitos dos profissionais que ajudaram a construir esse mercado não tiveram sequer seus nomes publicados nos trabalhos em que participaram.
Hideki Tsuji encontra o público brasileiro
A presença internacional mais aguardada desta edição é Hideki Tsuji.
O artista japonês participou da coletiva e mostrou bastante interesse em conhecer a produção nacional. Antes do evento, ele visitou a loja de Thiago e teve contato com diferentes trabalhos brasileiros.
Foi uma experiência nova para Tsuji, que admitiu não conhecer profundamente a produção de mangá brasileira antes da viagem.
A primeira impressão, entretanto, foi positiva.
O que mais chamou sua atenção foi a liberdade encontrada nos trabalhos nacionais.
“Vocês escrevem o que querem”
Ao comparar os dois mercados, Tsuji percebeu uma diferença que pode parecer pequena, mas que diz muito sobre os dois sistemas de produção.
Na visão dele, muitos artistas brasileiros possuem liberdade para escrever e desenhar exatamente aquilo que desejam. A possibilidade de produzir uma obra, colocá-la à venda e apresentá-la diretamente ao público também chamou sua atenção.
No Japão, explicou Tsuji, o caminho tradicional pode passar por diferentes etapas editoriais. A participação de editores e outras pessoas no processo pode fazer com que a versão final não seja exatamente aquela imaginada originalmente pelo autor.
Para o artista japonês, a liberdade criativa que encontrou no Brasil é um dos pontos fortes da produção nacional.
É uma observação interessante justamente por vir de alguém que trabalha dentro de uma das maiores indústrias de mangá do mundo.
“Não desistam”
Tsuji também deixou uma mensagem simples para quem está começando.
Quando perguntado sobre o que aconselharia aos artistas brasileiros que sonham em viver de mangá, sua resposta foi continuar sonhando, não desistir e continuar desenhando.
Para um evento que tenta justamente aproximar novos autores do mercado, a frase acabou funcionando quase como um resumo de sua proposta.
IA pode ajudar, mas não cria tudo sozinha
Como não poderia deixar de acontecer em uma conversa sobre produção artística atualmente, a inteligência artificial também entrou na pauta.
Tsuji vê a IA como uma ferramenta que pode ajudar o artista.
Ele não acredita, porém, que a tecnologia possa substituir completamente a criatividade humana. Para ele, uma inteligência artificial pode fazer parte do processo, mas não deveria ser responsável sozinha pela criação de uma obra.
A criatividade continua sendo, em sua opinião, o diferencial do autor.
De Akira ao tokusatsu
As referências de Tsuji também revelam bastante sobre sua formação.
O artista citou Akira e Dōmu, de Katsuhiro Otomo, como influências importantes. Ele destacou detalhes de cenários, texturas, iluminação, sujeira das ruas, reflexos nos olhos dos personagens e cenas de ação.
A influência de Akira não aparece, portanto, apenas na temática. Está também na forma de construir visualmente uma cena.
O tokusatsu é outra presença importante.
Tsuji contou que acompanha o gênero desde a infância e continua assistindo atualmente. Entre os títulos mencionados durante a coletiva estão Jiraiya, Dynaman e Bicrossers.
Ele também reconheceu que o gênero influenciou alguns personagens de sua produção, além de citar Tiger Mask entre suas referências.
Modernizar sem perder a identidade
Ao falar sobre Souten no Ken REGENESIS, Tsuji explicou uma das dificuldades de trabalhar com personagens e conceitos que já possuem uma história anterior.
É necessário preservar a base conhecida pelo público, mas também modernizar determinados elementos.
A maneira de falar dos personagens e alguns aspectos de sua caracterização foram atualizados para aproximá-los de uma audiência contemporânea.
Essa mesma preocupação aparece quando o assunto é o público.
A leitura digital mudou bastante o mercado, mas Tsuji acredita que o papel ainda tem espaço. Leitores mais jovens podem estar mais acostumados ao smartphone, enquanto fãs de gerações anteriores continuam preferindo livros e revistas físicas.
Uma parceria Brasil-Japão não está descartada
Se depender de Tsuji, a conversa entre os dois mercados não precisa terminar quando o evento acabar.
Perguntado sobre a possibilidade de desenvolver um novo mangá ao lado de um artista brasileiro, ele demonstrou interesse.
Para o autor, seria uma experiência nova e também uma oportunidade de conquistar leitores que ainda não conhece.
Naturalmente, uma colaboração dependeria de propostas e projetos concretos, mas a ideia foi recebida de maneira bastante positiva.
Ele também demonstrou interesse em incentivar outros artistas japoneses a conhecer o Brasil caso perceba que eles tenham vontade de participar de uma experiência semelhante.
O Comic Market como ponte
A presença de Tsuji acaba dando um significado maior à segunda edição do Comic Market Brasil.
O evento foi criado para aproximar artistas de empresas e profissionais, mas a participação de um mangaká japonês abre uma possibilidade adicional: conectar dois mercados que possuem características bastante diferentes.
Tsuji espera conversar com artistas brasileiros, conhecer suas histórias e entender de onde vêm suas ideias. A organização, por sua vez, espera que esse contato possa gerar novas relações entre autores, editoras e empresas dos dois países.
E talvez esse seja o aspecto mais interessante do evento.
O Comic Market Brasil não está tentando apenas importar uma referência japonesa para o público brasileiro. A proposta é permitir que os dois lados se encontrem — e que o Japão também descubra uma produção brasileira que, nas palavras do próprio Tsuji, surpreendeu justamente por sua liberdade.
Para quem acompanha quadrinhos, mangá e cultura pop, a segunda edição do evento representa uma oportunidade de conhecer artistas, descobrir novos projetos e, principalmente, observar de perto como uma cena independente brasileira tenta encontrar seu espaço profissional.
Com Hideki Tsuji no meio dessa conversa, o encontro ganha ainda uma dimensão internacional: talvez o maior resultado do Comic Market Brasil 2026 não seja apenas apresentar um artista japonês ao público brasileiro, mas começar a fazer com que artistas dos dois países descubram uns aos outros.
Para ver a coletiva de imprensa na íntegra, assista o vídeo abaixo:
