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domingo, 20 de setembro de 2026

[crítica] Resident Evil (2026)

 A nova adaptação para as telonas de Resident Evil chegou e não parece o que se esperava!


O novo Resident Evil finalmente entendeu os jogos?

Eu fui assistir ao novo Resident Evil em uma cabine de imprensa e confesso: saí da sessão bem mais surpreso do que esperava. E não é porque o filme tenta simplesmente reproduzir algum dos jogos. Na verdade, acontece justamente o contrário.

Dessa vez, não temos Jill, Chris, Leon, Claire ou qualquer outro dos protagonistas conhecidos. A história acompanha um personagem novo, vivendo uma situação paralela dentro do universo de Resident Evil. E foi justamente essa escolha que me chamou atenção. Manteve a atmosfera dos dos primeiros jogos e de Outbreak com uma pessoa comum em meio ao caos, sem precisar dos personagens dos jogos, mas ocorrendo em paralelo, drante os acontecimentos dos jogos.

Depois dos filmes estrelados pela Alice, que eram divertidos, mas cada vez mais voltados para a ação, da série da Netflix problemática e daquela tentativa de juntar elementos dos primeiros jogos em uma história completamente reorganizada (mas que foi mal organizada, diga-se de passagem), finalmente temos um filme que me passou uma sensação que eu não tinha tido nas adaptações anteriores:

“Isso parece Resident Evil.”

E não é apenas por causa dos "zumbis" e monstros infectados.

A atmosfera lembra bastante os primeiros jogos. Existe aquela sensação de entrar em um lugar que você não conhece, explorar, descobrir o que aconteceu, encontrar uma ameaça e nunca saber muito bem o que está esperando na próxima área.

Até algumas escolhas de câmera me fizeram lembrar de diferentes fases da franquia, incluindo Resident Evil Outbreak e Resident Evil Village.

E o filme também entende uma característica muito particular de Resident Evil: o horror pode ser realmente tenso e, ao mesmo tempo, existir um certo humor absurdo no meio daquele caos.

A comédia funciona justamente porque não transforma tudo em paródia. O protagonista reage às situações de uma maneira bastante humana, e isso cria momentos engraçados sem destruir completamente a tensão.

Também gostei muito da maneira como as referências aos jogos aparecem.

Não parece que alguém parou a história para dizer “OLHA A REFERÊNCIA!”.

Elas simplesmente estão ali.

Um exemplo que achei particularmente legal é a presença da máquina de escrever em uma sala de save. Para quem conhece os jogos, aquilo tem um significado imediato. Para quem não conhece, continua sendo simplesmente um elemento daquele ambiente.

É assim que eu gosto de fan service.

O filme não precisa copiar a história de Resident Evil 1, 2 ou 3 para lembrar os jogos. Ele parece muito mais interessado em reproduzir a sensação de estar jogando um deles.

E talvez essa seja justamente a maior surpresa dessa nova adaptação.

Não sei se todo fã vai concordar comigo (e certamente existem escolhas aqui que vão dividir opiniões), mas, pessoalmente, saí da sessão pensando que finalmente alguém encontrou uma maneira interessante de levar Resident Evil para o cinema sem simplesmente tentar transformar um jogo em filme (o que deu muito errado nas vezes anteriores, com vários jogos).

Sem spoilers: vale a experiência.

E agora eu quero saber o que vocês acharam.

Nota: 8,5

terça-feira, 21 de julho de 2026

[Crítica] Águas Mortais

Com direção de Renny Harlin (“Duro de Matar 2”, “Os Estranhos”), o filme acompanha o desespero que toma conta da tripulação e dos passageiros de um voo que parte de Los Angeles com destino a Xangai. Quando um incidente ocorre no compartimento de carga, a aeronave vira palco de uma luta pela sobrevivência quando cai no meio do oceano. 


Os sobreviventes, que já precisam lidar com as consequências do acidente e as perdas irremediáveis, descobrem um novo pesadelo: as águas onde caíram são habitadas por tubarões famintos por sangue que não vão poupar ninguém. Agora, a única saída para o grupo é superar suas diferenças e se unir em busca de escapar vivo da situação. 

No elenco, estão incluídos nomes como Ben Kingsley (“A Lista de Schindler”), Aaron Eckhart (“Batman: O Cavaleiro das Trevas”), Molly Belle Wright (“Mistletoe Ranch”), Elijah Tamati (“Holy Days”), Wenhan Li (“Quase Amor”), Simei Zhao (“Behind the Scenes”) e Angus Sampson (“O Poder e a Lei”). 

Entregando Mais Que o Prometido

O filme tem uma boa vantagem, ao escolher Aaron Eckhart e Ben Kingsley para contracenarem como piloto e co-piloto, com boa profundidade mostrada em breves e sutis momentos desde o início. Mesmo com um título genérico e um tema que se tornou clichê nos anos 90 e 2000 (acidentes de avião e sobrevivência), o roteiro e a escolha de elenco transformam este em um ótimo filme, que prende atenção do início ao fim.

Até mesmo os atores mirins que fazem os meio irmãos Finn e Cora traem bastante intensidade em vários momentos, com emoções bem executadas. A trilha sonora , que em alguns momentos conta até com Ben Kinsgley cantando Frank Sinatra em um karaokê ou accapela, por exemplo, consegue ser um elemento leve e conciso.


O perigo sempre á espreita

Como era de se esperar, o filme usa a fórmula clássica de dois tipos distintos de filme, sendo um o "Disaster Movie" (acidente de avião) e o perigo dos tubarões (que foi bem forte a partir de JAWS, de Steven Spielberg, e se repetiu exaustivamente por algumas décadas), mas feito com sabedoria e maestria, dando um belo toque de suspense.

Alguns personagens mereciam um tempinho a mais de tela, mas ainda assim, tudo que foi entregue nas cenas, foi suficiente para dar angústia, torcida por alguns, comemoração em outros. O filme lida bastante com as idéias de culpa e arrependimento, na maioria das experiências pessoais, podendo dar muito mais contexto do que diálogos enormes.

 Veredito Final

Muito suspense, tubarões e motores pegando fogo, este filme tem um bom ritmo e é ótimo ver na telona do cinema, além de te fazer pensar muitas vezes antes de pegar um avião, e principalmente lhe traz uma mensagem importantíssima: JAMAIS leve power bank na sua mala!

Com distribuição Diamond Films, a maior distribuidora independente da América Latina, o aflitivo ÁGUAS MORTAIS estreia nacionalmente em 23 de julho. 

Nota: 8

quarta-feira, 10 de junho de 2026

[Crítica] Dia D (Disclosure Day)

 Steven Spielberg passou décadas ajudando o cinema a construir nossa imagem dos extraterrestres. De "Contatos Imediatos do Terceiro Grau" a "E.T.", ele sempre preferiu o fascínio ao medo. Em "Dia D", o diretor retorna a esse território familiar, mas agora através de uma história que mistura conspiração, memória perdida, política e uma pergunta capaz de mudar a humanidade para sempre: o que aconteceria se a verdade sobre a vida extraterrestre fosse finalmente revelada ao mundo?


A trama acompanha dois personagens cujas vidas parecem não ter ligação alguma: uma repórter responsável pela previsão do tempo em uma cidade do Kansas e um hacker que trabalha para uma empresa associada à defesa nacional dos Estados Unidos. Aos poucos, ambos descobrem que compartilham um passado em comum e que suas histórias estão ligadas a um segredo guardado há décadas.

Spielberg conduz essa jornada como poucos diretores conseguem fazer. Existe um forte senso de maravilhamento em cada descoberta, ao mesmo tempo em que a narrativa mantém um clima constante de mistério e perseguição. Em vários momentos, o filme lembra um herdeiro espiritual de "Contatos Imediatos" e "E.T.", não por compartilhar personagens ou acontecimentos, mas pelo mesmo olhar curioso e quase infantil diante do desconhecido.

Nem tudo funciona perfeitamente. Alguns efeitos visuais impressionam, mas em determinadas cenas a computação gráfica se aproxima do chamado vale da estranheza, causando um leve desconforto visual que destoa do restante da produção. Felizmente, são momentos pontuais em um filme visualmente bastante competente.


O aspecto mais interessante da obra talvez esteja nas discussões que ela provoca. O roteiro brinca com diferentes interpretações científicas, filosóficas e religiosas sobre a existência de vida extraterrestre. Para alguns personagens, a revelação representaria o colapso de antigas certezas. Para outros, seria apenas mais uma peça de um universo muito maior do que imaginamos.

A tensão criada em torno da possibilidade de décadas de documentos, registros e evidências serem exibidos ao vivo para toda a humanidade é o combustível que move a narrativa. E é justamente aí que Spielberg encontra seu tema favorito: não os alienígenas em si, mas a reação humana diante do impossível.

"Dia D" talvez não esteja entre os trabalhos mais revolucionários de sua carreira, mas prova que Spielberg continua dominando uma habilidade rara no cinema moderno: fazer o público sair da sala olhando para o céu e se perguntando se estamos realmente sozinhos.

Veredito: Um thriller de ficção científica com alma de aventura clássica, que mistura conspiração, emoção e questionamentos existenciais em uma história que parece conversar diretamente com os grandes sucessos extraterrestres da carreira de Spielberg.

terça-feira, 9 de junho de 2026

[Cinema] Hit Para Dois

A Comédia Trágica da Vida de Quem Faz Música. Rick é um cantor de casamentos que já sonhou alto. Danny é um ex-astro de boy band que viu a fama passar rápido demais. Quando os dois se encontram por acaso e acabam improvisando uma música durante uma jam session madrugada adentro, nasce uma amizade improvável. Mas tudo muda quando uma composição criada naquele encontro se transforma em um grande sucesso — e apenas um deles recebe os créditos.


Se você é músico, provavelmente vai se identificar com pelo menos uma parte dessa história.

Paul Rudd interpreta Rick Powers, um músico talentoso que vive tocando em casamentos enquanto guarda a frustração de nunca ter alcançado o sucesso que imaginou para sua carreira. Do outro lado está Danny Wilson, vivido por Nick Jonas, um cantor que experimentou a fama muito jovem, mas que, ao contrário de seus antigos colegas de banda, não conseguiu manter o mesmo nível de reconhecimento em carreira solo.

O interessante é que o filme não trata nenhum dos dois como herói ou vilão. Ambos carregam inseguranças, arrependimentos e sonhos que ficaram pelo caminho. E talvez seja justamente isso que faça a história funcionar tão bem.

Quando a Ficção Parece Real Demais

Uma das coisas que mais chamam atenção em "Hit Para Dois" é como ele retrata uma realidade conhecida por praticamente qualquer artista independente.

A maioria dos músicos nunca terá a oportunidade de tocar para multidões. Muitos passam anos compondo, ensaiando, gravando e divulgando suas músicas sem conseguir alcançar o público certo. Talento, infelizmente, nem sempre é suficiente.

Por isso, mesmo trabalhando dentro de uma trama relativamente simples, o filme acerta ao mostrar as frustrações, expectativas e até a inveja que podem surgir quando o sucesso bate à porta de alguém próximo.

Curiosamente, as músicas originais do longa foram compostas pelo próprio diretor e se misturam a clássicos do rock ao longo da narrativa, ajudando a construir a identidade musical do filme sem parecer forçado.


Um Conflito Que Poderia Ser Resolvido Com Uma Conversa

É impossível assistir sem pensar que boa parte dos problemas da trama poderia ter sido resolvida com uma conversa honesta.

Mas a vida real também é assim.

Muitas vezes, pequenas omissões, decisões impulsivas ou conselhos errados acabam gerando consequências muito maiores do que deveriam. O filme entende isso e explora essa ideia de forma natural, sem precisar recorrer a grandes reviravoltas ou exageros dramáticos.

Simples, Mas Eficiente

"Hit Para Dois" não tenta reinventar a roda.

Seu maior mérito está justamente em saber o que quer ser: uma comédia dramática leve, fácil de acompanhar e que funciona muito bem graças à química entre Paul Rudd e Nick Jonas.

Em vários momentos, o filme lembra produções como "Letra e Música", principalmente pela mistura entre humor, música e personagens tentando encontrar seu lugar em um mercado extremamente competitivo.

Também é curioso observar como Nick Jonas parece brincar com aspectos da própria trajetória artística, enquanto Paul Rudd entrega um personagem que precisa amadurecer justamente quando acredita já ter aprendido tudo sobre a vida.

Veredito

"Hit Para Dois" é daqueles filmes confortáveis de assistir. Não é uma obra revolucionária nem pretende ser. Em vez disso, entrega uma história sincera sobre amizade, ego, reconhecimento e as voltas inesperadas que a vida dá.

Para músicos, compositores e qualquer pessoa que já tenha sonhado em viver de arte, a identificação é quase inevitável.

Uma boa mistura de comédia e drama, com personagens carismáticos, uma trilha sonora competente e uma mensagem otimista sem cair no sentimentalismo exagerado. Um daqueles raros filmes que conseguem mostrar as dificuldades da vida artística sem perder a leveza.

Nota: 8/10

quarta-feira, 27 de maio de 2026

[Cinema] Chopin, Uma Sonata Em Paris

 Você teria coragem de transformar um dos maiores gênios da música clássica em uma estrela do rock boêmia e sarcástica? Pois é exatamente isso que o filme "Chopin, uma Sonata em Paris" faz. E olha... isso dividiu completamente a opinião do público e da crítica!


OS PONTOS POSITIVOS (O que brilha)

Se você vai ao cinema esperando aquela cinebiografia tradicional, lenta e certinha... esquece. O diretor Michał Kwieciński desconstrói o mito do poeta melancólico. O Chopin aqui é humano, cheio de defeitos, irônico e magnético.

A atuação do Eryk Kulm tá sendo aclamada no mundo todo — ele entrega um carisma surreal mesmo quando a tuberculose consome o personagem. Sem falar na fotografia e na reconstrução de Paris, que são visualmente deslumbrantes. É um banquete para os olhos e para os ouvidos!

OS PONTOS NEGATIVOS (Os problemas)

Mas nem tudo são notas perfeitas. Muita gente reclamou que o roteiro é fragmentado, e de fato, é. Personagens históricos importantes, como Franz Liszt, entram e saem da tela sem desenvolvimento, o que corta um pouco a conexão emocional.

Além disso, o filme mergulha fundo na decadência física e no sofrimento do Chopin. Para os puristas, o longa pesou a mão no drama e ignorou fatos reais importantes do final da vida dele.

CONCLUSÃO

Meu veredito? Vale muito o ingresso se você desapegar do livro de história e aceitar um drama psicológico intenso sobre a finitude.

Mas e você, já assistiu ou ficou curioso? Deixa aqui nos comentários se você prefere biografias mais certinhas ou essas mais ousadas!

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Opinião: Você percebeu que ninguém mais se diverte?

Você já percebeu que nos últimos anos as pessoas só andam procurando algo para reclamar, ao invés de aproveitar? Todo mundo fala mal até dos filmes que antes gostavam ou achavam legais, qualquer coisa nova que é lançada procuram pelo em ovo, e ficam reclamando até daquilo que não viram nem usufruíram... Por que será que o mundo está ficando tão chato assim? E o mais estranho é que é um fenômeno global, não é apenas regional.


Eu acho que existem várias camadas acontecendo ao mesmo tempo — tecnológicas, sociais e psicológicas — e todas acabaram se misturando globalmente.

Uma das maiores mudanças foi que a internet deixou de recompensar “aproveitar” e passou a recompensar “reagir”. Plataformas inteiras funcionam em cima de engajamento, e indignação gera muito mais clique, comentário e compartilhamento do que satisfação. Quando alguém fala “gostei do filme”, a conversa morre rápido. Quando alguém fala “esse filme destruiu minha infância”, vira guerra, meme, vídeo, thread, corte, resposta, algoritmo empurrando mais e mais.

Isso cria um efeito curioso: reclamar virou entretenimento.

E aí aparece outra coisa importante: hoje as pessoas consomem opinião antes de consumir a obra. Muita gente já entra num filme, jogo ou série procurando defeitos porque passou dias vendo thumbnail no YouTube, ragebait no TikTok ou discussão no X/Twitter. A experiência deixa de ser espontânea. A pessoa não assiste mais “pra ver como é”; ela assiste quase como jurada.

Também existe um fenômeno de saturação cultural. Antigamente, quando algo novo surgia, havia menos comparação instantânea. Hoje qualquer lançamento compete simultaneamente com décadas de nostalgia, milhões de opiniões online e expectativas impossíveis. Um filme não é apenas um filme — ele vira “o representante de uma franquia”, “o símbolo da indústria”, “a prova de que Hollywood morreu” ou “a salvação do cinema”. As pessoas colocam um peso absurdo nas obras.

E tem outro ponto que pouca gente comenta: muita gente está cansada emocionalmente. Crises econômicas, excesso de informação, ansiedade constante, pressão social, doomscrolling… tudo isso deixa as pessoas mais irritadiças e menos abertas ao encantamento. Quando alguém está mentalmente esgotado, fica mais fácil procurar problema do que entrar no clima da experiência.

Curiosamente, isso não significa necessariamente que o mundo tenha piorado artisticamente. Às vezes o ambiente de discussão ficou mais tóxico do que as obras em si.

Um exemplo claro é como filmes que eram massacrados anos atrás hoje são revisitados com carinho. A trilogia prequel de Star Wars: Episode I – The Phantom Menace foi extremamente criticada na época e hoje tem fãs apaixonados. O mesmo aconteceu com Spider-Man 3, Speed Racer, vários jogos do PlayStation 3 e até músicas que eram consideradas “cafonas”. Muitas vezes o problema não era a obra em si — era o clima coletivo em torno dela.

Outra coisa interessante: reclamar também virou forma de pertencimento social. Em muitos grupos online, ser extremamente crítico passa uma imagem de inteligência ou “bom gosto refinado”. Demonstrar entusiasmo genuíno às vezes é tratado quase como ingenuidade. Então algumas pessoas entram num ciclo onde desaprovar tudo vira identidade.

Mas apesar dessa impressão pesada, ainda existe muita gente aproveitando as coisas de verdade — só que elas costumam fazer menos barulho. Quem está feliz jogando um jogo geralmente está… jogando. Quem odiou o jogo provavelmente está fazendo vídeo de 40 minutos explicando por que a indústria acabou.

E talvez esse seja o detalhe mais importante: a internet amplifica descontentamento de um jeito desproporcional. O mundo real normalmente é menos amargo do que o feed parece.

Quais seriam formas possíveis de se resolver este estranho problema que estamos vivendo?

Não existe uma solução única, porque isso virou um comportamento cultural global, alimentado por tecnologia, economia de atenção e até pelo jeito como as pessoas constroem identidade online. Mas existem caminhos bem reais que poderiam diminuir bastante esse ciclo.

Um dos principais seria mudar o incentivo das plataformas. Hoje, algoritmos recompensam reação intensa — especialmente raiva. Conteúdo equilibrado quase nunca viraliza no mesmo nível que “isso destruiu minha infância” ou “o cinema morreu”. Enquanto indignação gerar mais lucro, ela continuará sendo empurrada. Plataformas poderiam reduzir alcance de ragebait repetitivo e valorizar mais descoberta, análise genuína e discussão saudável. Não resolveria tudo, mas mudaria o clima aos poucos.

Outra coisa importante seria recuperar o hábito de experimentar antes de opinar. Muita gente forma opinião baseada em cortes, thumbnails e comentários. Isso cria uma cultura de julgamento preventivo. Talvez uma mudança simples — socialmente falando — seria normalizar frases como: “Ainda não vi”, “Não é pra mim, mas entendo quem gosta”, ou mesmo “Talvez eu esteja fora do público-alvo”

Parece pequeno, mas isso desmonta muito do comportamento tribal.

Também ajudaria bastante separar crítica de identidade pessoal. Hoje muita gente sente que gostar ou não gostar de algo virou posicionamento moral. Um filme deixa de ser “divertido ou ruim” e vira “sinal de inteligência”, “prova de caráter” ou “guerra cultural”. Isso transforma entretenimento em campo de batalha permanente. A cultura ficaria mais leve se as pessoas voltassem a permitir que certas coisas fossem apenas… entretenimento.

Existe ainda um problema de excesso de consumo. Antigamente alguém assistia alguns filmes por ano e mergulhava neles. Hoje muita gente consome trailers, leaks, reviews, teorias, reação ao trailer, reação da reação, análise da análise… antes mesmo da obra sair. Quando finalmente assiste, já está emocionalmente saturada. Parte da magia morre antes da experiência começar.

Talvez uma solução pessoal muito poderosa seja reaprender a sentir descoberta sem mediação constante. Assistir algo sem procurar opinião antes. Jogar um jogo sem ver ranking. Ouvir um álbum inteiro sem algoritmo interrompendo. Parece simples, mas isso reconstrói a relação emocional com arte e diversão.

Outra coisa que ajudaria muito seria valorizar entusiasmo sincero novamente. Hoje existe uma ironia constante online, como se demonstrar alegria genuína fosse “cringe”. Só que entusiasmo é parte essencial da experiência humana. Fandom saudável cria comunidade, criatividade, amizade, música, cosplay, mods, animações, memes bons, eventos… praticamente toda cultura pop forte nasceu de gente apaixonada, não de gente tentando parecer intelectualmente superior.

E talvez exista uma mudança maior acontecendo lentamente: muitas pessoas já estão cansando da negatividade contínua. Dá pra perceber um movimento crescente de gente buscando conteúdos mais tranquilos, acolhedores ou honestamente divertidos. Vídeos de conforto, jogos cozy, comunidades menores, experiências mais humanas. É como se uma parte do público estivesse começando a perceber que viver permanentemente irritado não é sustentável.

No fim, talvez a “cura” passe por algo quase contraintuitivo hoje: voltar a permitir encantamento!!!

Porque uma sociedade que desaprende a se divertir começa a transformar tudo em disputa, teste ideológico ou competição de cinismo. E isso acaba esvaziando justamente aquilo que fazia cultura pop, arte e entretenimento serem especiais.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Super Mario invade Kinder Joy e transforma nostalgia em conexão entre gerações

 Coleção aposta na força da cultura pop para aproximar pais e filhos e ampliar a presença da marca no dia a dia das crianças.


O universo de Super Mario acaba de ganhar um novo espaço fora das telas: dentro do Kinder Joy. Em uma aposta na força da cultura pop, Kinder®, marca do grupo Ferrero, lança uma coleção especial inspirada em um dos personagens mais icônicos da história dos games — com o objetivo de transformar nostalgia em conexão entre gerações.

Mais do que um licenciamento, a iniciativa reforça o papel de Kinder Joy como um ponto de encontro entre pais e filhos. Para muitos adultos, Mario faz parte da própria infância; agora, surge como uma oportunidade de compartilhar esse universo com os filhos de forma leve, divertida e presente no cotidiano.

A coleção chega ao mercado com uma variedade de acessórios inspirados no personagem, pensados para acompanhar as crianças no dia a dia. Entre os itens estão bonecos 2D e 3D que podem ser usados como chaveiros, decoradores de zíper e de caneta, clips, pop its e tags para personalizar a mochila e muito mais. Mais do que simples surpresas, os itens incentivam a criatividade e a expressão individual, especialmente no ambiente escolar, onde as crianças constroem identidade, compartilham interesses e criam vínculos.

De fases clássicas nos videogames aos lançamentos mais recentes no cinema e no entretenimento, Super Mario atravessa gerações como um verdadeiro fenômeno cultural. Com mais de 40 anos de história, o personagem segue relevante, com uma base de fãs ativa e engajada ao redor do mundo — o que reforça sua força como ponte entre diferentes públicos.

Esse movimento também acompanha uma mudança no comportamento de consumo, cada vez mais conectado à cultura pop. Entre os principais públicos da coleção estão pais millennials, que cresceram jogando videogame, criando uma ponte natural entre gerações - e fãs da franquia que mantêm uma relação próxima com itens licenciados e colecionáveis.

“Kinder Joy tem como propósito criar momentos de conexão entre pais e filhos por meio da surpresa e da diversão. Trazer esse universo de Super Mario para Kinder Joy é transformar uma simples surpresa em uma experiência que pais e filhos podem compartilhar juntos” comenta Diego Caride, diretor de Marketing de Kinder®.

O lançamento faz parte de um plano que inclui ativações com influenciadores, iniciativas voltadas às comunidades de fãs e forte presença no ponto de venda, ampliando o alcance da coleção e reforçando a conexão da marca com diferentes gerações.

A coleção marca ainda a primeira distribuição nacional de uma linha temática de Super Mario dentro do portfólio de Kinder Joy, com presença ampliada no varejo e ações de comunicação ao longo do lançamento. O produto já está disponível em pontos de venda de todo o país, com preço sugerido de R$11,79.

domingo, 5 de abril de 2026

[Crônica] Sinto falta de críticos como Rubens Ewald Filho

Hoje eu queria falar de alguém que, talvez sem muita gente perceber na época, ajudou a formar o olhar de uma geração inteira sobre cinema no Brasil: Rubens Ewald Filho. E não é exagero.

Eu sinto falta de críticos como o Rubens Ewald Filho. E hoje, vou comentar o por quê eu digo isso tanto. Aliás, pode ser levado como uma crítica aos "críticos" de internet atuais, aos influencers digitais, e ao mesmo tempo até uma homenagem ao próprio saudoso Rubens.


Ele podia até errar — e errava — mas existia uma coisa essencial: coerência. Ele analisava cinema como cinema.

Hoje, muita crítica parece mais interessada em empurrar uma visão de mundo do que em avaliar um filme de verdade. Muita gente não analisa mais filme… analisa posicionamento. Se não encaixa numa visão específica, já vira problema — independente da qualidade. Não é mais sobre roteiro, direção, trilha sonora ou atuação… é sobre se o filme segue ou não uma expectativa ideológica.

E aí acontece o absurdo: obras bem feitas, divertidas, com boa construção narrativa, são ignoradas ou massacradas por não entrarem em certos temas — como se todo filme tivesse obrigação de carregar um discurso específico. Ou Seja, não por serem ruins, mas por não seguirem uma cartilha.

E o mais curioso é a incoerência. Tem gente que cobra discurso, cobra postura… mas na prática não vive nada disso. Exige do cinema aquilo que nem aplica na própria vida.

Cinema não é só isso. Cinema também é entretenimento, emoção, escapismo.

Se um filme cumpre bem a proposta dele — seja fazer rir, emocionar ou encantar — isso deveria importar, ser o principal.

Aos diretores, eu digo, se quiser falar de política, a sua visão, pode colocar no roteiro, mas conta uma boa história, faça uma boa escrita. Faça valer a pena ver o seu pensamento sobre o assunto em uma forma que entretem de verdade nas telas, e não que fique parecendo uma cartilha, com qualidade duvidosa.

No fim das contas, crítica não deveria dizer no que você tem que pensar… mas te ajudar a entender melhor o que você está assistindo.

MAS, QUEM FOI RUBENS EWALD FILHO?

Rubens Ewald Filho não era só um crítico… era praticamente um tradutor do cinema pro público brasileiro.

Se você já parou pra assistir ao Oscar em algum momento entre os anos 90 e 2000, é praticamente impossível que você não tenha ouvido a voz dele. Era aquele tipo de presença que não precisava aparecer o tempo todo — quando aparecia, você sabia que vinha informação, contexto, história… e opinião. Muita opinião.

Mas o mais curioso é que o Rubens não ficou só na TV. Ele estava em tudo quanto era canto onde o cinema passava. Pra muita gente, ele era aquela voz nas transmissões ao vivo comentando filme, ator, diretor… quase como um guia, te explicando o que você estava vendo sem te tratar como burro. Pra outros, ele estava nas revistas, nos jornais, nas críticas escritas. E tem um detalhe que muita gente esquece: ele também esteve, indiretamente, dentro da casa de muita gente através das fitas VHS.

Sim, VHS.

Naquela época em que a gente alugava filme no fim de semana, muitas traduções, adaptações e até escolhas de títulos passavam pela mão dele. Ou seja, ele não só comentava cinema — ele ajudava a moldar como o brasileiro consumia cinema.

E aí entra um ponto que, pra mim, é o que mais diferencia ele de muita gente hoje: a forma como ele falava de cinema.

O Rubens não tinha aquela coisa travada, elitista, cheia de termos que parecem mais pra afastar do que pra aproximar. Ele conseguia falar de um filme complexo de um jeito simples… sem simplificar demais. Isso é muito difícil. Ele traduzia o cinema. Ele fazia a ponte entre a obra e o público comum.

E ao mesmo tempo… ele não era neutro.

Muito pelo contrário.

Ele tinha opinião forte, às vezes polêmica, às vezes direta até demais. Mas isso fazia parte do pacote. Ele não estava ali pra agradar todo mundo — ele estava ali pra dizer o que pensava. E isso, gostando ou não, dava personalidade. Hoje em dia a gente vê muito crítico tentando ficar em cima do muro… o Rubens não. Ele escolhia um lado, defendia, e pronto.

Os críticos atuais, no máximo tentam empurrar o seu lado, mesmo que sequer tenham um, e apenas finjam ter um, apenas por visualizações, ou mesmo "porque o pagamento caiu". Há muito mais cr´tiicos "famosos" que são "rasos" do que realmente entendam de cinema, infelizmente. E é um copiando/imitando o outro. E os poucos autênticos (de alguma forma), não conseguem ter relevância em números.

E talvez seja por isso que ele ficou tanto tempo relevante. Porque ele não era só “mais um crítico”. Ele era uma figura. Uma referência. Alguém que você podia concordar ou discordar, mas não ignorar.

E aí vem a parte inevitável.

Em 2019, o Rubens Ewald Filho faleceu.

E quando isso aconteceu, muita gente sentiu como se tivesse perdido uma espécie de “guia” — aquele cara que, por décadas, esteve ali ajudando a gente a entender melhor o cinema, mesmo que a gente nem percebesse isso conscientemente.

Hoje, olhando pra trás, dá pra perceber o tamanho do impacto.

Ele não só comentou filmes. Ele não só analisou obras. Ele não só apareceu na TV.

Ele ajudou a formar o olhar de quem assistia.


QUEM FOI, LONGE DAS TELAS?

Bom, tenho alguma propriedade, memso que pouca, para falar ao menos o que eu conheci. Tive o prazer de tê-lo conhecido presencialmente, tendo conversado algumas vezes. Ele era super receptivo com todos, independente de serem famosos ou desconhecidos.

Um de seus filmes favoritos (que pode-se dizer até que era um "guilty pleasure") era Professor Aloprado (o primeiro do Eddie Murphy, não o do Jerry Lewis). Ele alugava ao menos uma vez por mês, junto de outros filmes, novos e antigos, na antiga 2001 Video de Moema. Sei disso porque muitas vezes eu o atendia lá, quando fui freelancer por alguns anos (principalmente entre 2013 e 2015), e se a loja não estivesse lotada no dia, eu gostava de conversar sobre cinema com ele.

Tanto ele, quanto Paulo Gustavo (antiga revista SET), tinham opiniões bem diretas desde sempre, e estavam abertos à idéias diferentes em um bate papo sobre cada filme que acabavam de assistir, nas cabines de imprensa. Nem sempre eu concordava com algumas opiniões mais pessoais, mas, havia respeito e uma boa prosa, sempre!

Fora das câmeras, Rubens Ewald Filho era exatamente aquilo que muita gente imaginava… e ao mesmo tempo, um pouco mais humano do que a figura pública deixava transparecer.

Ele era, antes de qualquer coisa, um cara completamente obcecado por cinema — no melhor e no pior sentido da palavra. Não era só profissão. Não era só trabalho. Era rotina, era hábito, era praticamente o jeito dele existir no mundo. Ele assistia filme como quem respira. E isso moldava tudo ao redor dele.

Quem convivia mais de perto costumava comentar que ele tinha uma memória absurda. Não era só “ah, já vi esse filme”. Era:

— lembrar elenco completo

— ano de lançamento

— bastidores

— curiosidades específicas

Tipo uma enciclopédia viva… só que com opinião.

E isso vinha junto com uma personalidade muito característica.

Ele não era exatamente o tipo de pessoa “polida” o tempo todo. Não fazia muito esforço pra suavizar o que pensava. Se gostava, falava. Se não gostava… falava mais ainda. Isso podia soar duro pra algumas pessoas, até meio impaciente às vezes. Mas também era o que tornava ele autêntico. Não tinha filtro artificial.

Ao mesmo tempo, existe um lado que pouca gente comenta:

ele era extremamente dedicado ao trabalho. Não era aquela dedicação performática de aparecer… era disciplina mesmo. Ver filme, estudar, escrever, comentar, repetir. Por décadas. Sem parar.

E isso cobra um preço.

Porque quando alguém vive tanto dentro de um universo — no caso dele, o cinema — é comum que a vida pessoal fique mais reservada, mais fechada. Ele não era uma figura de exposição íntima. Você sabia muito mais sobre o que ele pensava dos filmes… do que sobre a vida dele fora disso.

E talvez isso seja até coerente.

Porque, no fim das contas, o Rubens nunca tentou vender uma imagem pessoal. Ele não era o “influencer de si mesmo”. Ele era o cara do cinema. E só.

Mas tem um detalhe importante nisso tudo:

mesmo sendo direto, crítico e às vezes duro… ele também tinha um lado de admiração genuína pelo cinema. Quando ele gostava de algo, dava pra perceber. Não era só análise técnica — tinha paixão ali.

E isso é o que segura tudo.

Porque você pode discordar de um crítico… mas quando você percebe que ele ama aquilo de verdade, a conversa muda.

Se fosse resumir esse lado mais pessoal dele, no seu estilo:

Fora das câmeras, Rubens Ewald Filho não era um personagem… era um cara que viveu tanto o cinema, que acabou se tornando parte dele.

E talvez seja por isso que, mesmo depois de tanto tempo… a ausência dele ainda é sentida.

E QUEM FOI ELE, DENTRO DO CINEMA?

Muita gente conhece o Rubens Ewald Filho só como “o cara que comentava filmes”… mas isso é só uma parte da história.

Porque, antes — e durante — tudo isso, ele também tentou viver o cinema por dentro.

E isso muda bastante a forma como a gente enxerga o trabalho dele.

Rubens não ficou só na cadeira de crítico. Ele estudou cinema, escreveu sobre cinema, mas também se envolveu diretamente com produção, roteiro e até atuação, mesmo que muita gente não associe isso de imediato ao nome dele.

No começo da carreira, ele teve contato direto com o fazer cinematográfico, principalmente no Brasil, numa época em que a indústria era muito mais limitada e difícil. Ele participou de projetos como roteirista e colaborador criativo, ajudando a construir histórias — o que, pra um crítico, é um diferencial enorme.

Porque uma coisa é analisar filme pronto.

Outra coisa completamente diferente é entender o processo de criar um.

E isso aparece na forma como ele falava.

Quando ele criticava um roteiro, por exemplo, não parecia alguém “de fora chutando”. Parecia alguém que sabia onde doía. Onde travava. Onde funcionava ou não funcionava.

Além disso, ele também fez participações como ator, geralmente pequenas, quase como participações especiais. Nada que definisse a carreira dele, mas o suficiente pra mostrar uma coisa: ele não via o cinema como algo distante, ele queria fazer parte daquilo (Mesmo que não fosse o foco principal.).

Mas talvez a parte mais forte desse “lado de dentro” dele esteja em outra coisa:

Tradução e adaptação

Isso aqui é subestimado demais.

Rubens trabalhou com:

  • tradução de filmes
  • adaptação de diálogos
  • versões para o público brasileiro

E isso, principalmente na época de VHS e TV, era praticamente uma arte invisível.

Porque não era só traduzir palavra por palavra. Era:

  • adaptar contexto
  • ajustar timing
  • manter sentido cultural
  • fazer o filme “funcionar” em português

E isso influencia MUITO a experiência de quem assiste

Muita gente cresceu vendo filmes “do jeito que ele ajudou a moldar”… sem nem saber disso.

E aí entra um ponto que amarra tudo: Ele não era só alguém que opinava sobre cinema.

Ele já tinha estado dentro, já tinha tentado construir, já tinha participado do processo. E isso dá um peso diferente pra crítica.

Eu mesmo, tento seguir seus passos neste ponto, afinal, também trabalho como ator, já fui locutor de rádio, escrevo minhas críticas de filmes e games em alguns sites. Levo comigo o seu intuito: falar de forma direta e simples, sem palavras difíceis, para que todos possam entender do que se trata aquilo que estou falando!

Rubens Ewald Filho não era só um cara que falava de cinema… ele já tinha colocado a mão na massa — e isso fazia toda diferença na hora de criticar.

E talvez seja por isso que, mesmo quando a gente discorda de algumas opiniões dele… ainda assim dá pra respeitar. Porque não vinha só de teoria. Vinha de vivência.

AONDE VIMOS ELE ANTES?

Embora mais reconhecido como crítico de cinema, Rubens Ewald Filho (1945–2019) teve breves experiências como ator, incluindo o filme Amor, Estranho Amor (1982). Sua atuação artística foi mais intensa como roteirista de telenovelas (como Éramos Seis) e diretor teatral. Ele é lembrado como o "Homem do Oscar". 

Destaques de Rubens Ewald Filho no cinema e teatro:

Atuação: Participou do filme Amor, Estranho Amor (1982).

Roteirista: Escreveu o roteiro de filmes como A Árvore dos Sexos (1977) e Elas são do Baralho (1977), além de colaborar na novela Éramos Seis (SBT).

Direção Teatral: Dirigiu peças como O Amante de Lady Chatterley e Querido Mundo (de Miguel Falabella).

Legado: Comentou o Oscar por mais de 30 anos e catalogou mais de 37 mil filmes.

Além de ator e roteirista, ele foi um dos críticos mais influentes do Brasil, com passagens pela TV Cultura, TNT, HBO Brasil e jornais como o Jornal da Tarde.

AONDE QUERO CHEGAR COM TUDO ISSO?

Embora mais reconhecido como crítico, Rubens Ewald Filho foi muito mais do que isso. Passou pelo cinema como ator em Amor, Estranho Amor (1982), escreveu roteiros, dirigiu teatro, colaborou com televisão… mas, no fim, encontrou seu verdadeiro lugar entre a tela e o público. Foi ali que ele construiu algo raro: não apenas opinião, mas ponte.

Rubens não falava difícil pra parecer inteligente — ele tornava o cinema acessível sem tirar sua complexidade. Tinha opinião, tinha personalidade, tinha coragem de discordar. E, acima de tudo, tinha paixão verdadeira pelo que fazia. Em um tempo em que muitos preferem agradar ou seguir tendência, ele fazia algo mais simples e mais difícil: era autêntico.

Talvez seja por isso que faça tanta falta.

Não só pelo conhecimento, mas pela presença. Pela forma como guiava o olhar, como contextualizava, como fazia a gente enxergar mais do que estava na tela. Hoje, com tanta informação disponível, ainda assim parece que falta alguém que realmente saiba traduzir o cinema como ele fazia.

Porque o Rubens Ewald Filho até apareceu em algumas produções… mas o lugar onde ele realmente “atuava” era na TV — comentando, explicando e, de certa forma, fazendo a gente enxergar o filme junto com ele. O homem que não estava dentro do filme… mas estava em todos eles.

E talvez seja exatamente por isso que sinto falta de críticos como ele. Porque mais do que assistir filmes, ele nos ensinou a ver.

sexta-feira, 13 de março de 2026

[Crítica] Devoradores de Estrelas

 Ryan Gosling no espaço: quando Interestellar bate de frente com o humor lúdico!


Quando o universo depende de um professor cansado: a beleza nerd de Devoradores de Estrelas

À primeira vista, Project Hail Mary, conhecido no Brasil como Devoradores de Estrelas, parece só mais uma ficção científica sobre o fim da humanidade. Mas não se engane: Essa não é uma história sobre explosões espaciais, invasões alienígenas ou presidentes discursando dramaticamente enquanto um meteoro vem destruir a Terra.

Na verdade, é algo muito mais perigoso para o cinema moderno: uma história sobre ciência funcionando. Sim. Aquela "coisa chata chamada ciência" (por assim dizer).

O apocalipse mais silencioso do cinema

A premissa é simples e assustadora.

Um microrganismo alienígena começa a consumir energia das estrelas — incluindo o nosso Sol.

Resultado: o planeta Terra caminha lentamente para uma era glacial global.

Sem explosões. Sem alienígenas atacando cidades. Só uma morte lenta e gelada. É quase poético.

A humanidade não seria destruída pela guerra ou pela tecnologia… mas por uma bactéria espacial com fome de energia.

O herói improvável

O protagonista da história é Ryland Grace, interpretado no filme por Ryan Gosling.

E aqui está uma das maiores qualidades da obra: Grace não é um herói. Ele não é um comandante lendário nem um astronauta cheio de frases épicas. Ele é um professor de ciências do ensino fundamental. Um cara que provavelmente passaria a vida inteira explicando por que vulcões existem para crianças entediadas.

Mas quando o Sol começa a morrer, é exatamente esse tipo de pessoa que acaba sendo enviado para o espaço. 

E isso já é uma crítica social maravilhosa: quando o mundo realmente precisa ser salvo, quem resolve o problema não são influencers, políticos ou bilionários. São cientistas. E professores.

Rocky: o alienígena mais simpático da ficção científica moderna

No sistema estelar Tau Ceti acontece o encontro que transforma a história. Grace descobre que não está sozinho tentando salvar sua estrela. Outra civilização também está lá. E dessa nave surge Rocky.

Rocky é um alienígena que parece uma mistura de aranha com tanque de guerra e se comunica através de acordes musicais. Sim. Um alienígena que fala em música. O que poderia ser ridículo se torna simplesmente genial. Porque a relação entre Grace e Rocky vira o coração da história. Eles não brigam. Não competem. Não discutem política interestelar. Eles fazem algo extremamente radical: tentam se entender.

Ciência como espetáculo

O grande desafio da adaptação cinematográfica era transformar um livro cheio de experimentos científicos em algo visualmente interessante. E o filme consegue isso surpreendentemente bem.

O organismo alienígena conhecido como Astrophage é representado como partículas negras que absorvem energia de forma quase hipnótica. É ciência transformada em espetáculo visual.

Mas sem abandonar a lógica científica que torna a história tão fascinante. Algo que lembra o melhor de filmes como Interstellar ou Arrival.

Humor no meio do apocalipse

Outro elemento que funciona muito bem é o humor. Grace reage às situações absurdas exatamente como qualquer pessoa reagiria. Quando ele descobre que existe um alienígena na nave ao lado, sua reação não é filosófica.

É basicamente: “Ok… isso definitivamente não estava no manual.”

Esse humor lembra bastante o estilo de Andy Weir, autor do livro. O mesmo responsável por The Martian, outra história onde um cientista tenta sobreviver usando ciência… e sarcasmo.

A amizade mais improvável do espaço

Mas no fundo, Devoradores de Estrelas não é sobre salvar o Sol. É sobre amizade. A relação entre Grace e Rocky é construída com paciência, curiosidade e cooperação científica.

Eles começam trocando números. Depois palavras. Depois piadas. E quando percebemos, dois seres de planetas completamente diferentes se tornaram parceiros tentando salvar suas espécies. Isso é algo raríssimo na ficção científica moderna. Não é uma história sobre conflito entre civilizações. É uma história sobre colaboração entre inteligências.

Uma crítica social silenciosa

Talvez a maior mensagem da história seja esta: o mundo não é salvo por grandes discursos.

Ele é salvo por pessoas curiosas o suficiente para fazer perguntas e pacientes o suficiente para testar hipóteses.

Em outras palavras:

o mundo é salvo por nerds.

Conclusão

Devoradores de Estrelas é uma raridade. Uma ficção científica que acredita na inteligência. Uma história sobre amizade entre espécies. E um lembrete de que o conhecimento ainda pode ser a ferramenta mais poderosa da humanidade. No fim das contas, o universo não foi salvo por armas gigantes. Foi salvo por dois cientistas de espécies diferentes tentando resolver um problema juntos.

E honestamente? Isso é muito mais inspirador do que qualquer explosão de blockbuster.

Até porque, como a própria história sugere… talvez o verdadeiro milagre do universo não seja a vida.

Talvez seja duas formas de vida completamente diferentes conseguirem se entender.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Fantasma (Phantasm - 1979, 1988, 1994, 1998, 2016) - Uma Franquia de Terror Atemporal

 abe aquele clássico que você valoriza mais anos após ser feito, e não quando é lançado?

Sabe quando você olha pra um filme e pensa:
“isso aqui não deveria existir desse jeito… mas existe”?

É exatamente isso que eu sinto quando penso na franquia Phantasm… principalmente no Phantasm IV: Oblivion, de 1998.

Porque, vamos ser sinceros…
1998 não parece o ano certo pra um filme de Phantasm existir.
A gente tava vivendo Jurassic Park, Godzilla, American Pie, blockbuster, efeito digital, outro ritmo de cinema…
E de repente surge um filme que parece ter saído direto dos anos 70 ou 80, como se o tempo tivesse simplesmente passado por cima dele.

E aí muita gente olha pra isso e fala:
“ah, esse filme é ruim”,
“ah, esse filme é preguiçoso”,
“ah, esse filme recicla cena antiga”.

Mas o ponto é: Phantasm nunca foi uma franquia normal.

Ela nunca funcionou no tempo certo.
Nunca saiu no intervalo certo.
Nunca se explicou direito.
Nunca tentou agradar todo mundo.

E talvez por isso ela funcione tão bem hoje.

Phantasm é uma franquia “fora do tempo”

Um dos pontos mais importantes é a estranheza temporal da franquia. Phantasm nunca seguiu a lógica industrial comum dos slasher movies dos anos 80:

O primeiro filme é de 1979

Phantasm II só surge 9 anos depois

Os filmes seguintes continuam surgindo com intervalos irregulares

Isso cria um efeito raro: a franquia envelhece junto com seus personagens e com o público. Ao contrário de séries como Friday the 13th ou Halloween, que eram produtos anuais, Phantasm parece existir à margem da indústria, quase como um projeto pessoal e contínuo de Don Coscarelli.

Esse descompasso faz com que Phantasm IV (1998) pareça “errado” à primeira vista. Em um mundo pós-Jurassic Park, American Pie e Godzilla, um filme que soa, parece e se comporta como algo dos anos 70/80 causa estranhamento — e exatamente aí reside sua força.

O primeiro Phantasm já era estranho na época.
Ele não explicava tudo.
Era onírico, confuso, fragmentado.
Parecia mais um pesadelo do que uma história linear.

E conforme os filmes avançam…
eles não ficam mais organizados.
Eles ficam mais quebrados.
Mais melancólicos.
Mais conscientes da própria passagem do tempo.

E aí chega o Oblivion.

Um filme que muita gente rejeita porque reutiliza imagens antigas.
Mas quando você para pra pensar…
isso não é um defeito.
Isso é o próprio tema do filme.

Memória.
Passado que invade o presente.
Fragmentos que não se encaixam perfeitamente.

O personagem lembra, mas lembra errado.
O espectador lembra, mas lembra diferente.

Isso não é um truque barato.
Isso é Phantasm sendo Phantasm.

E no meio disso tudo… tem o Tall Man.
Angus Scrimm.

Cara… poucas figuras do terror envelheceram tão bem quanto ele.
Mesmo quando o filme tropeça,
mesmo quando o orçamento é curto,
mesmo quando a narrativa se perde…

Toda vez que ele aparece em cena, o filme ganha peso.
Ganha presença.
Ganha ameaça.

E tem cenas em Oblivion que, sinceramente, são melhores do que muita coisa de franquia grande por aí.
Aquela sequência quase lovecraftiana, o confronto físico, a sensação de “isso não vai acabar bem”…
Aquilo é horror puro.
Sem pressa.
Sem piadinha.
Sem fórmula.

Angus Scrimm é o coração da franquia.

Assim como Freddy Krueger sustenta A Nightmare on Elm Street, o Tall Man sustenta Phantasm. Independentemente da qualidade de cada filme:

  • Sua presença é sempre ameaçadora
  • Seu carisma é estranho, hipnótico e melancólico
  • Ele carrega um peso quase mítico

Mesmo em Ravager (parte 5, que aqui ficou como "Fantasma: Devastador", em 2016), quando sua saúde já não permitia uma atuação plena, sua presença continua significativa. Revisitar os filmes hoje também é revisitar uma das grandes figuras do horror, construída de forma mais sutil e menos caricata do que muitos vilões da época.

Revisitar Phantasm hoje é perceber que essa franquia não tentou se modernizar à força.
Ela não tentou virar algo que não era.
Ela envelheceu do jeito dela.

E talvez por isso ela converse tanto com a gente agora.
Porque hoje a gente aceita mais o estranho.
Aceita mais o não-linear.
Aceita mais o filme que não mastiga tudo.

Phantasm não é sobre entender tudo.
É sobre sentir desconforto.
É sobre memória falhando.
É sobre envelhecer lutando contra algo que nunca morre.

Então, se você lembra desses filmes como “confusos”,
ou “malucos”,
ou “meio errados”…

Talvez seja exatamente por isso que eles merecem ser revistos hoje.

Porque alguns filmes não envelhecem mal.
Eles simplesmente esperam o tempo certo pra serem entendidos.

E talvez Phantasm nunca tenha sido um filme do ano em que saiu…
mas sim do ano em que você decide voltar pra ele.

Se você já reviu, comenta aí o que você acha.
Se nunca viu, dá uma chance.
E se você odeia… beleza também.

Porque Phantasm nunca foi feito pra agradar todo mundo.

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

[Cinema] Dollhouse - A Boneca da Casa

 Se você achava que o universo das bonecas sobrenaturais já tinha dado tudo o que podia, prepare-se: Dollhouse (Japão 2025) chega para misturar luto, terror psicológico e um toque de humor subversivo, e entregar uma experiência de J-horror que se alimenta de referências como Ringu, Annabelle e aquele incômodo que só uma boneca pode trazer.

Dirigido por Shinobu Yaguchi — mais conhecido por comédias como Waterboys e Swing Girls — o filme mostra que ele resolveu “pegar pesado” e mergulhar de cabeça no terror.

Ficha Técnica
Título: Dollhouse - A Boneca da Casa
Ano de Produção: 2025
Dirigido Por: Shinobu Yaguchi
Estreia: 6 de Novembro de 2025
Duração: 1h40
Classificação: 14 Anos
Gênero: Terror/Drama
País de Origem: Japão
Sinopse: Yoshie (Masami Nagasawa) e Tadahiko (Kōji Seto) são casal, têm uma filha de 5 anos chamada Mei, que morre num trágico acidente. Devastada, Yoshie compra uma boneca que se parece fisicamente com Mei, como forma de consolo. Anos depois, quando a segunda filha Mai (Aoi Ikemura) cresce, encontra a boneca esquecida — e aí o terror se instala.

 

O que funciona

  1. Mistura de emoções fortes + sustos
    Esse filme não é só feito de sustos baratos: ele investe no luto da mãe, no vazio deixado pela filha, e na ambiguidade entre consolo e obsessão — o que torna a atmosfera bem mais densa que “uma boneca que anda e mata”.

  2. Direção inesperada de Yaguchi
    Era algo que ninguém esperava: de comédias feel-good para um terror que joga com o desconforto, o familiar e o bizarro. Isso traz uma camada “estranha” que atualiza o gênero.

  3. Referências culturais e visuais capazes
    Elementos típicos do J-horror — bonecas, objetos inanimados que ganham vida, rituais, culpa — são bem usados. Aqui podemos ver “parental grief e spiritual terror” colidindo.

O que peca / onde o filme perde pontos

  1. Pacing e excesso de elementos
    Por querer “ter tudo” — humor, família, rituais, mistério, perseguição, boneca, investigação — o filme perde um pouco de ritmo (mas não estraga tanto, apenas deixa mais tenso).

  2. Originalidade limitada
    Quem já viu dezenas de filmes de boneca possuída vai reconhecer muitos trópicos: boneca que reaparece, ritual de cremação, criança que encontra o objeto esquecido. Isso não é problema em si, mas o filme não reinventa radicalmente o gênero (mesmo utilizando bem destes elementos).

  3. Susto versus atmosfera
    Para quem espera sustos intermináveis, pode achar que o terror aqui está mais em tensão do que em jump scares constantes. Aqui você sente o peso dos sentimentos do casal muito mais do que medo de um fantasma aparecer de repente.

Por que assistir?

  • Se você ama terror psicológico e não tem problema em que seja “menos sangue, mais mente”, aqui está uma pedrada.

  • Se gosta de filmes japoneses que misturam cultura, luto e horror, esse se destaca.

  • Ideal para assistir com amigos que não são hardcore de terror — dá para ser “divertido + assustador” mesmo.

Para quem pode não dar muito certo

  • Se você quer terror ultra-atual, com sustos em série e roteiro ultra enxuto — talvez ache “ligeiramente previsível”.

  • Se não curte bonecas ou objetos que viram vilões, fique sabendo que a boneca está no centro da história (obviamente).

Conclusão

Dollhouse consegue fazer algo raro: pegar um diretor reconhecido por comédias e fazê-lo mergulhar no horror com certa confiança, construir uma história que mexe com culpa, perda, objetos simbólicos e o “estranho no lar”. Não é o filme de terror mais revolucionário da história, mas para fãs de J-horror — e para quem gosta de reflexões por trás do susto — funciona muito bem. Altamente recomendado, com pequenas ressalvas.

terça-feira, 30 de setembro de 2025

[Música] The Monkees - Um Legado Incrível

Quem foram The Monkees, e por quê são tão importantes para a música e para a Cultura Pop?


 1. Contexto antes dos Monkees

Hoje eu vou contar a história de uma banda que nasceu como um roteiro de TV, mas acabou virando algo que ninguém esperava: uma banda de verdade. E não uma banda qualquer, mas um dos maiores fenômenos da música pop dos anos 60. Eu tô falando dos Monkees. Ou como alguns diziam na época: os ‘Beatles de brinquedo’. Só que, ironicamente, eles acabaram vendendo mais discos que os Beatles e os Rolling Stones juntos em 1967. Quem é de brinquedo agora?

Imagina só… é 1964. Os Beatles pisam nos Estados Unidos e viram um terremoto cultural. A Beatlemania não era só música — era corte de cabelo, roupa, jeito de falar. De repente, tudo tinha que ser jovem, rápido, engraçado, com sotaque britânico. E claro, a televisão americana, que nunca perde uma chance de copiar o que dá certo, pensou:

‘Por que não criar o nosso próprio Beatles… só que de laboratório?’"

Pensa comigo: naquela época, a TV era cheia de sitcoms familiares, casais perfeitos, vizinhos engraçados. Mas nada realmente voltado pros adolescentes. Era como se os jovens fossem invisíveis. Então a ideia dos produtores Bob Rafelson e Bert Schneider foi simples: criar uma série sobre quatro garotos atrapalhados, tentando ser uma banda de rock. Meio comédia pastelão, meio aventura, mas sempre com música. Um Frankenstein televisivo costurado em cima da sombra dos Beatles.

Sim, os Monkees começaram como uma ficção. Mas a ficção, às vezes, é mais poderosa que a realidade. E aqui a gente vai mergulhar fundo: desde os bastidores da série, as comparações inevitáveis com Beatles, Beach Boys, Byrds, passando por músicas que nasceram quase sem querer e viraram clássicos… até chegar nos paralelos com boybands modernas, tipo Backstreet Boys e até K-pop. E claro, não dá pra esquecer a vida solo de cada um deles — incluindo alguns filmes B maravilhosamente ruins que o Micky Dolenz topou fazer depois. Porque aqui no Corte Brutal, a gente não passa pano: a gente mostra o sucesso, mas também o ridículo.

2. Criação da série/Como surgiram – o “plano Beatles”

Pra entender os Monkees, você precisa lembrar o impacto dos Beatles em 1964. A Beatlemania explodiu, todo mundo queria ter seu próprio grupo que vendesse milhões. E na TV americana, produtores pensaram: ‘E se a gente não procurar músicos… mas sim atores, que podem interpretar músicos?’ Ou seja: não importa se os caras tocam ou não. Importa se eles têm carisma de tela. Esse foi o conceito. Uma série de TV sobre uma banda fictícia.

E sabe o que é mais louco? Esse formato não era novidade absoluta. Os Beatles já tinham feito dois filmes de comédia musical: A Hard Day’s Night e Help!. A diferença é que os Beatles eram músicos que viraram atores, enquanto os Monkees eram atores que virariam músicos. É quase como se o roteiro tivesse sido invertido. E, ironicamente, deu certo.

E aí começa a fase mais divertida: os testes de elenco. Centenas de candidatos apareceram. Gente de todo tipo: atores, músicos, malucos, caras que só estavam lá porque leram o anúncio no jornal. O casting era caótico, mas os produtores queriam algo bem específico: quatro tipos diferentes que, juntos, seriam explosivos.

Os testes de elenco dos Monkees viraram lenda. Mais de 400 jovens fizeram audições. O anúncio no jornal pedia ‘quatro malucos, músicos ou não’. E apareceram de tudo: gente tentando imitar Beatles, surfistas estilo Beach Boys, e até uns que mais pareciam figurantes de faroeste. O objetivo era encontrar quatro personalidades diferentes que juntas formassem um grupo atrativo. Algo meio… Beatles meets The Three Stooges.

E os escolhidos foram… Davy Jones, o britânico bonitinho com cara de galã teen. Micky Dolenz, o ex-ator mirim que já tinha rodagem em TV. Michael Nesmith, o cara mais sério, texano, que já compunha músicas próprias. E Peter Tork, o hippie de verdade, músico de barzinho, indicado pelo Stephen Stills. Sim, o Stephen Stills do Crosby, Stills & Nash. O cara foi chamado, não passou, mas disse: ‘Chamem meu amigo, ele é bom’. E chamaram o Peter.

Nenhum dos quatro se conhecia de antes. Cada um tinha sua bagagem, mas nenhum era famoso de verdade. Só Davy Jones tinha um pezinho na Broadway. Ele já tinha feito teatro musical em Londres e até apareceu no Ed Sullivan Show na mesma noite que os Beatles estrearam na TV americana. Ou seja, o cara já tava no lugar certo na hora certa. Uma coincidência de ouro

E é engraçado ver os depoimentos em documentários… o Micky sempre dizia que entrou porque era o único que conseguia ser engraçado sem roteiro. O Nesmith já falava que só foi porque precisava do cheque. O Davy dizia que se via como um astro inevitável. E o Peter… bom, o Peter só queria tocar. Cada um já tinha uma visão diferente desde o início.


3. Primeira fase: o fenômeno televisivo

A série estreia em 1966… e pá!… sucesso imediato.

Era colorida, rápida, cheia de cortes ousados. Misturava humor físico, sátira de espionagem, ficção científica e até faroeste.

Cada episódio tinha números musicais, que eram basicamente… clipes. Isso antes mesmo da MTV existir. Então sim, de certa forma, os Monkees inventaram o videoclipe sem querer.

E claro, veio a avalanche de marketing. Bonecos, figurinhas, lancheiras, revista em quadrinho… qualquer coisa que pudesse ter a cara deles, tinha. Era a Disney antes da Disney dominar tudo. E o público adolescente foi à loucura.

Só que… tinha um problema. O público comprava, mas a crítica não. Pra imprensa séria, os Monkees eram… uma fraude.

4. O dilema da banda de mentira

E aí chegamos ao ponto mais polêmico. Nos primeiros discos, os Monkees não tocavam nada. As músicas eram escritas por compositores de estúdio, gravadas por músicos profissionais.

Eles só botavam a voz — e olhe lá.

Don Kirshner, o produtor, tratava o grupo como marionetes. Chamava compositores de peso, como Neil Diamond e Carole King, e garantia que os hits estivessem prontos. ‘Last Train to Clarksville’, ‘I’m a Believer’… tudo feito na fábrica. O público amava, mas os jornalistas logo perceberam: 'peraí, eles nem são uma banda de verdade!'

E isso começou a incomodar os próprios Monkees. Em entrevistas, o Dolenz dizia: ‘Eu via aquilo como um trabalho de ator. Interpretar um músico era só mais um papel.’ Já o Nesmith odiava. Pra ele, era humilhação. Ele queria gravar suas músicas, mostrar que tinha talento. E o Peter Tork estava do lado dele. Já o Davy Jones… bem, ele estava feliz em ser ídolo teen. Ele gostava dos holofotes, ponto.

E aí vem a parte mais deliciosa dessa história: os produtores queriam apenas uma banda fictícia, mas os Monkees começaram a se rebelar. Eles não queriam só dublar músicas gravadas por músicos de estúdio. Eles queriam tocar. Queriam compor. Queriam ser uma banda de verdade. Michael Nesmith era o mais teimoso nesse ponto — ele dizia em entrevistas: ‘A gente tá vendendo discos como uma banda, então deixem a gente ser uma banda’. Peter Tork também era músico de verdade, tocava piano e baixo. E Micky Dolenz, que começou como ator mirim, se virou na bateria. Era meio desengonçado no começo, mas aprendeu rápido. Resultado: eles viraram uma banda de verdade na marra.

A primeira música de impacto dos Monkees foi Last Train to Clarksville. Escrita por Tommy Boyce e Bobby Hart, que eram basicamente os ‘fornecedores de hits’ da série. Se você ouvir com atenção, dá pra perceber que Last Train to Clarksville é quase um clone estilizado de Paperback Writer dos Beatles. Só que com uma pegada mais folk-rock, no estilo dos Byrds. Ou seja, eles eram uma colagem de influências que já faziam sucesso. Só que o público… amou.

Outra música icônica é I’m a Believer, escrita por Neil Diamond. Olha o nível da coisa: Neil Diamond, que depois viraria um dos maiores artistas dos EUA, estava escrevendo músicas pros Monkees antes de estourar por conta própria. E I’m a Believer foi número 1 por semanas. Não dá pra chamar de ‘banda de mentira’ quando você tem esse tipo de repertório, certo?

Aliás, "I'm a Believer" ainda teve uma "sobrevida" dupla curiosa: nos anos 90 teve uma versão em português, de sucesso, por Lulu Santos, e também teve uma versão modernizada para a saga de SHREK.

5. A revolta interna

Voltando aos anos 60, a coisa estava andando, até que a corda estourou.

Nesmith ficou tão irritado que chegou a confrontar Don Kirshner numa reunião. E a frase entrou pra história: ‘Com esse dinheiro, você pode comprar uma nova gravata… mas não o meu respeito.’ O cara quase partiu pra cima do chefão. E isso virou o ponto de virada.

O resultado foi o álbum Headquarters, em 1967. Pela primeira vez, os quatro tocaram de verdade. Escreveram, tocaram instrumentos, brigaram no estúdio, mas fizeram um disco só deles. E o som mudou: ficou mais folk-rock, mais experimental, mais cru. Foi quando os Monkees deixaram de ser fantoches e começaram a ser uma banda de verdade.

Se os Beatles eram a inspiração óbvia, os Monkees também beberam da fonte dos Beach Boys e dos Byrds. Por exemplo, Pleasant Valley Sunday, escrita por Gerry Goffin e Carole King, tem um estilo muito próximo dos Byrds, com guitarras brilhantes em 12 cordas. Já algumas harmonias vocais dos Monkees lembram diretamente os Beach Boys, só que de uma forma mais pop, menos sofisticada. Enquanto Brian Wilson tava surtando no estúdio criando Pet Sounds, os Monkees estavam gravando hits de 2 minutos e meio. Mas adivinha? Venderam milhões. O mercado não premia necessariamente a genialidade, premia o que gruda na cabeça.

Agora, pensa comigo: os Monkees foram praticamente a primeira boyband mainstream. Só que sem coreografia ensaiada. Se fosse hoje, eles estariam competindo com BTS, EXO, ou sei lá, Stray Kids. A diferença é que, em vez de dança sincronizada, eles tinham episódios de TV com piadas pastelão. Ou seja: onde hoje você teria TikToks coreografados, nos anos 60 você tinha um episódio dos Monkees tropeçando num sofá. Evolução ou involução? Aí depende do seu gosto.

E outra: será que as boybands atuais conseguem dizer que venderam mais que Beatles e Stones juntos em um único ano? Não né? Pois é. O ‘fake’ venceu.


6. O filme Head (1968)

E aí vem um dos capítulos mais loucos dessa história: o filme Head.

Co-escrito por ninguém menos que… Jack Nicholson. Sim, o futuro Coringa, o cara de O Iluminado.

O filme era uma desconstrução total da imagem dos Monkees. Surreal, psicodélico, cheio de críticas sociais, cenas sem sentido, e basicamente dizendo: ‘Nós sabemos que vocês acham que somos falsos… e vamos rir disso na sua cara.’

O resultado? O público adolescente não entendeu nada. O filme foi um fracasso total. Mas anos depois, virou cult. Hoje é visto como uma das coisas mais ousadas que a indústria pop já tentou fazer. Só que na época, foi o começo do fim.


7. O fim da série e a fragmentação

Depois disso, a série foi cancelada. O interesse caiu.

Peter Tork foi o primeiro a sair, cansado da bagunça.

Nesmith tentou seguir carreira solo, fundou uma banda de country rock e até se envolveu na criação de videoclipes anos depois.

Dolenz e Davy ainda tentaram manter a chama acesa, mas era impossível.

O mito dos Monkees estava se desfazendo. Eram vistos como uma moda passageira, um truque de televisão.


8. Reuniões e nostalgia

Mas os Monkees nunca morreram de verdade.

Nos anos 80, a MTV começou a reprisar os episódios. Uma nova geração descobriu a série, e isso reacendeu o interesse.

Eles fizeram turnês nostálgicas, lançaram compilações, e cada vez que voltavam, aparecia uma leva de fãs novos.

Claro, as brigas internas nunca acabaram. Jones e Dolenz eram os mais abertos pra ganhar dinheiro com nostalgia. Nesmith sempre relutava, só aceitava voltar de vez em quando. E o Peter… bom, ele era aquele hippie que topava, mas reclamava.

A morte de Davy Jones em 2012 foi um choque. Mas mesmo assim, os outros continuaram. Em 2016, lançaram o álbum Good Times!, com músicas escritas por gente moderna, como Rivers Cuomo, do Weezer, e Noel Gallagher. E sabe o que é engraçado? O disco foi elogiado! Parecia que os Monkees tinham encontrado de novo sua razão de existir.

E antes de morrer em 2021, Nesmith ainda fez uma turnê com Dolenz. Foi a despedida. Uma espécie de 'final feliz' pro cara que sempre brigou contra o sistema, mas no fim entendeu que o legado era maior do que ele mesmo.

9. Carreiras Solo - cada um por si

Michael Nesmith:

Depois dos Monkees, o Nesmith seguiu carreira country-rock. Ele basicamente antecipou o som que depois seria popularizado pelos Eagles. Gravou discos respeitados, fez turnês, e ainda ficou milionário porque a mãe dele inventou… a fita corretiva Liquid Paper. Sim, aquele branquinho de apagar caneta. Às vezes, o rock não paga as contas, mas a papelaria paga.

Peter Tork:

O Tork foi o mais hippie do grupo. Tocava vários instrumentos, participou de jams com grandes músicos dos anos 60, mas nunca alcançou um sucesso solo muito grande. Ele acabou virando uma espécie de ícone cult, sempre lembrado como ‘o músico sério preso numa banda fake’.

Davy Jones:

O Davy Jones seguiu carreira de cantor romântico, aparecendo em programas de TV e até em Brady Bunch. Ele virou o Monkee mais associado à imagem de galã teen. Até em Os Simpsons ele apareceu, como piada, cantando ‘Girl’. Davy era o coração romântico da banda.

Micky Dolenz:

O Micky foi o que mais se manteve ativo no entretenimento. Ele virou dublador, fez direção de TV e cinema, e estrelou alguns filmes B hilários, tipo Night of the Strangler e Teen Alien. Sabe aquele tipo de filme que você aluga na locadora achando que vai ser sério e descobre que é quase uma paródia involuntária? Pois é, Micky Dolenz tava lá.

10. O legado cultural

E o que ficou dos Monkees? Eles provaram que uma banda fabricada podia se tornar real. Inventaram o videoclipe sem querer. Influenciaram a linguagem pop da TV, da música, da moda. E abriram um debate que até hoje existe: o que é autêntico em arte?

Se você começa falso, mas depois encontra sua voz… você ainda é falso? Ou você se torna verdadeiro pelo processo?

No fim das contas, os Monkees provam uma coisa: às vezes, a mentira dá mais certo que a verdade. Eles nasceram como uma invenção, mas a insistência deles em se tornarem músicos reais transformou o projeto numa banda histórica. O paralelo com boybands modernas é inevitável: será que algum grupo de K-pop vai conseguir quebrar esse estigma e virar algo além de um produto? Talvez sim, talvez não. Mas os Monkees já mostraram que é possível.

E eu vou ser sincero: entre ver mais um reality de K-pop e reassistir a série dos Monkees com aqueles cortes rápidos e piadas nonsense, eu fico com os Monkees. Porque no fundo, a vida já é tão caótica que rir de quatro caras fingindo ser músicos é quase… reconfortante.

E é isso que torna os Monkees tão fascinantes.

Eles são uma das bandas mais 'Corte Brutal' da história. Porque nasceram como produto, mas acabaram virando arte. E até hoje dividem opiniões, mas nunca deixam de ser lembrados com carinho.

terça-feira, 5 de agosto de 2025

[Evento] Hideo Kojima retorna à BGS em 2025

 Hideo Kojima retorna à BGS em 2025 — um momento histórico para os games no Brasil


A organização da Brasil Game Show (BGS) confirmou a presença de Hideo Kojima em sua 16ª edição, que acontecerá entre os dias 9 e 12 de outubro de 2025 no Distrito Anhembi, em São Paulo. O lendário diretor japonês retorna ao maior evento de games da América Latina após oito anos de sua última visita, quando foi ovacionado pelos fãs e premiado com o BGS Lifetime Achievement Award em 2017.

A agenda de Kojima na BGS 2025

Kojima estará presente nos dias 11 e 12 de outubro, com diversas atividades abertas ao público. Entre elas:

- Painéis públicos sobre o desenvolvimento criativo de Death Stranding 2: On the Beach, lançado no dia 26 de junho de 2025;

- Meet & Greet para fotos e autógrafos com fãs;

- Participação como jurado no concurso BGS Cosplay, avaliando homenagens a personagens icônicos, muitos criados por ele mesmo 

O que faz desse momento especial

Marcelo Tavares, fundador e CEO da BGS, descreve a vinda de Kojima como “um momento histórico para o evento e para a indústria nacional de jogos” 

Em 2017, o público brasileiro protagonizou uma das maiores demonstrações de admiração já vistas, entoando seu nome por onde ele passava.

Kojima é reverenciado por revolucionar a narrativa interativa, elevando os videogames à condição de arte. Celebrado por criar franquias como Metal Gear e Death Stranding, ele consolidou uma linguagem própria que une cinema, filosofia e temas existenciais em uma experiência jogável.

Death Stranding 2 e além: o que esperar

O principal foco da visita será divulgar Death Stranding 2: On the Beach, sequência lançada em junho de 2025 exclusivamente para PlayStation 5, com recepção crítica geralmente favorável 

Kojima irá detalhar o processo criativo do game, os desafios de produção e os temas que inspiraram a nova fase da franquia.

Além disso, seu trabalho em andamento com projetos como OD, uma experiência de terror em parceria com Jordan Peele e Microsoft, e o aguardado Physint — um ambicioso título de espionagem para PlayStation 6 — reforçam seu protagonismo no futuro da indústria.

BGS 2025: uma nova etapa para o evento

Em 2025, a Brasil Game Show ocupará os cinco pavilhões do Distrito Anhembi, ampliando significativamente sua estrutura física e modernizando a experiência para visitantes e expositores 

Essa edição marca uma nova fase do evento, consolidando sua vocação como polo global do universo gamer com ativações imersivas, painéis internacionais e torneios de eSports.

Serviço: BGS 2025

Datas: 9 a 12 de outubro de 2025 (dia 9 reservado para imprensa e negócios)

Local: Distrito Anhembi – Av. Olavo Fontoura, 1209, São Paulo (SP)

Horário: das 13h às 21h 

A presença de Hideo Kojima na Brasil Game Show 2025 não é apenas uma celebração da carreira de um dos maiores criadores de games da história, mas também um símbolo do quanto o Brasil se consolidou como um espaço vibrante e relevante para a cultura gamer global. A expectativa é alta — e quem estiver presente poderá vivenciar de perto um dos nomes mais influentes da indústria em atividade neste momento.

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

[Evento] CINEMA: THE NAKED FESTIVAL CHEGA AO MIS NESTE DOMINGO

 No dia 3 de agosto, acontece o The Naked Festival, no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo.


O evento é uma idealização de um grupo de jovens cineastas que reuniu sete curta-metragens independentes para uma exibição especial de: TEA, La Pursé, DEBA, Minha Mãe é uma Vaca, Edges, 2 Brasis e Arame Farpado. Depois da sessão, os diretores sobem no palco para uma rápida conversa com o público e, na sequência, será lançada a plataforma da Naked — um espaço digital gratuito, criado para conectar bons filmes a um público que valoriza o cinema independente. Fechando a noite, acontece a premiação do melhor filme, escolhido por um júri formado por Bruno Gagliasso, Ciça Castello, Fernanda Chicolet, Rodrigo Teixeira, René Sampaio, Maria Shu e Marcelo Hessel. Mais do que uma mostra, o festival é parte de um projeto maior que se dedica o ano inteiro à criação, exibição e divulgação de filmes autorais. Tudo isso com um objetivo: fortalecer a cena independente e criar um espaço para quem vive o cinema. Durante o evento, também vai acontecer encontros e muita música. Sem alarde. Sem legenda. Apenas cinema.



Local: MIS - Museu da Imagem e do Som | Av. Europa, 158 - Jardim Europa

Horário: 17h - 00h

Ingressos: R$ 160,00 | LINK DE VENDA